Quem sou eu

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Bacharel, Mestre e Doutor em Teologia pela Escola Superior de Teologia (EST). Área de Concentração: Teologia Sistemática. Pesquisador nas áreas de: Estudos Feministas, Teorias de Gênero, Teoria Queer, Masculinidade, Homossexualidade e Diversidade Sexual, na sua relação com Religião e Teologia.

Sobre as eleições e o futuro da nação

Quem me acompanhou nas redes sociais viu meu envolvimento nas eleições municipais desse ano. Não consegui participar tão ativamente como gostaria da discussão interna do Partido das Trabalhadoras e dos Trabalhadores (quanto a programa e estratégias eleitorais) nem da campanha propriamente dita (de debates, conversas, diálogos nas ruas). Mas me envolvi como pude (inclusive contrariando algumas recomendações), pois entendo que é um processo importante para as cidades brasileiras e, no meu caso, especialmente para a cidade onde vivo e trabalho. Assumi esse compromisso com toda a liberdade e convicção com que tento levar a minha vida. Mas também com muita clareza e perspectiva crítica com relação aos processos eleitorais em geral e esse em particular.
Durante esse período participei de conversas e planejamentos (especialmente no âmbito proporcional), falei com outras pessoas sobre as candidaturas que apoiei, divulguei e distribuí materiais impressos e digitais, contribuí financeiramente, adesivei meu carro, coloquei placa no meu apartamento (como é no terceiro andar ninguém conseguiu arrancar), fui em plenárias e caminhadas. Fiquei também com medo e até constrangido em algumas situações por conta de um extremo conservadorismo tomado de ódio, por um lado, e por questões conjuntais, pelo outro. Vi e ouvi muitas coisas que me dão esperança e um tanto de outras que tornam o contexto em que vivemos ainda mais desesperador.
No momento o que mais se fala é sobre a “derrocada do PT” (Partido ao qual sou filiado) ou da esquerda como um todo. Há diversas análises muito apropriadas sobre todo esse cenário que devem ser levadas muito a sério, especialmente por quem acredita em outros mundos possíveis (expressão que já carrega em si uma certa conotação política pelo seu uso histórico) e por quem entende que os processos políticos locais e globais não estão isolados. Mas também há algo de particular e de “mais próximo” nas eleições municipais que subvertem algumas lógicas mais generalizantes. Provavelmente por isso, na minha cidade, justamente o PT (com outros partidos da coligação Frente Popular) tenha saído vitorioso no pleito.
Também já foram feitas (e ainda serão feitas) várias análises sobre o cenário local e as razões para essa vitória (e outros elementos da eleição). Não é exatamente esse o meu objetivo aqui. Quero apenas ponderar que, tendo acompanhado as gestões anteriores do PT na cidade (uma delas como integrante do governo), há sim uma substantiva diferença ideológica com repercussões práticas na vida da população (nesse caso a mais empobrecida e privada de direitos). Tenho orgulho de ter acompanhado e participado de várias coisas que foram feitas nessas gestões e também muita consciência dos equívocos e dos processos interrompidos (sobre os quais eu acredito que ainda seja necessário para o próprio Partido refletir com mais profundidade). E talvez quem votou no PT nessa eleição nem tenha tanta clareza sobre essas questões, pois, embora algumas pessoas prefiram dizer que “o povo é burro”, acredito, pelo contrário, que “o povo” sabe muito mais das coisas, pois as experimenta de outra maneira e nem sempre as articula como especialistas e analistas gostariam.
Além disso, pensar sobre a importância da participação nos processos políticos. Não! Os nossos sonhos, as nossas lutas, a nossa fome não cabem nas urnas dessa democracia manipulada pelos mesmos interesses de sempre para seu próprio proveito – do lucro e do capital, do pai e do patrão. Ainda assim, acredito que o processo eleitoral que vivenciamos pode nos ajudar a pensar justamente os processos (e sua insuficiência e ineficiência) de participação popular (aqueles que realmente tornam as pessoas protagonistas e agentes efetivas). Não pretendo que as minhas escolhas ou opções estejam à cima de qualquer crítica e espero ter a oportunidade de continuar intervindo para que tenham efeitos que melhorem a vida das pessoas. Mas como educador e pesquisador, como pessoa de fé e, claro, como cidadão, entendo que é minha tarefa ética participar e incentivar a participação para que mais pessoas, com mais pontos de vista, assumam o compromisso e a responsabilidade de ajudar a construir os processos, cada vez mais inclusivos, cada vez mais justos, cada vez mais como a gente entende que devam ser – seja lá a forma e o jeito que esse “como” venha a ter.

Esse pode até parecer mais um desabafo pessoal do que qualquer coisa que valha a pena ler (e provavelmente é). Mas em tempos de governos golpistas, escolas sem partido, campanhas contra acordos de paz e outros processos sustentados pelo pânico criado em torno do que chamam “ideologia de gênero”, entendo que qualquer possibilidade de pensar meu lugar no mundo e minhas relações é também uma forma de resistir a todas as forças que nos sufocam e matam todos os dias. Eu posso sempre mudar de ideia e desistir de um caminho que não dá conta dos meus anseios e desejos para mim e para todas as pessoas. Só não gosto da ideia de deixar outras pessoas terem ideias por mim e ficar sentado à margem do caminho esperando para ver onde ele vai dar. Como canta Adriana Calcanhoto: “Ah, eu quero chegar antes”.

Peter Nash, Dr. Honoris Causa - meu agradecimento e minha homenagem!

A primeira vez que eu vi o Peter Nash foi através da janela da cozinha de uma das alas de moradia do antigo “Prédio Velho”. Era meu primeiro semestre e ainda não estava habituado ao mundo da Escola Superior de Teologia, mas já me chamou a atenção um homem negro, com calças justas de corrida e cabelos com dreadlocks. Só depois descobri que era um novo professor, vindo dos Estados Unidos. Ao longo dos anos Peter se tornou uma das principais referências na minha formação teológica e também um grande amigo e companheiro.
Meu primeiro contato com Peter em sala de aula foi no componente curricular “Introdução ao Antigo Testamento”. Acho que foi a primeira turma a ter aula com ele e a principal dificuldade era com o idioma. Peter tentava se comunicar em Português, mas raramente a turma o entendia – a situação melhorou nos anos seguintes, mas falar Português sem dúvida não é o traço mais forte de Peter. Lembro que durante a aula, diante da evidente incompreensão de estudantes, ele começava a rir (com sua risada característica, fechando os pequenos olhos) e às vezes atirava giz pela sala em sinal de frustração e para desespero de estudantes aflitos/as de primeiro ano. A saída foi fazer as leituras e se preparar para a prova final que foi de múltipla escolha.
Outro componente curricular que fiz com Peter foi “aprendendo com maus exemplos da Bíblia”. Já mais familiar com o idioma, foi um semestre muito produtivo lendo a Bíblia com outras lentes – especialmente pelo viés da negritude – e desconstruindo camadas de interpretação bíblica que esconderam questões importantes dos textos. Com ele e mais tarde com a Dra. Maricel Mena López aprendi sobre hermenêutica bíblica negra e hermenêutica bíblica negra feminista. Era um tempo de descobertas para mim, para a EST e para a IECLB – que nunca mais foram as mesmas.
Peter foi um grande incentivador de meu intercâmbio nos Estados Unidos. Ele e Michael Rose (outro professor visitante, da Alemanha) riam muito quando eu dizia que São Leopoldo era uma grande cidade (vindo de Teutônia, uma cidade de aproximadamente 20 mil habitantes), nos almoços de conversação em inglês dos quais participei antes do intercâmbio. O meu intercâmbio, e especialmente o meu estágio, nos Estados Unidos me aproximaram ainda mais de Peter e de seu trabalho e luta no campo da Teologia Negra. A experiência de viver e trabalhar numa comunidade afroamericana (em Newark, New Jersey), de ler Alice Walker, Maya Angelou e escutar muito Tracy Chapman certamente marcaram minha trajetória e minha teologia. Como diz Emilie Townes, eu finalmente questionei a minha “branquitude” e entendi minha responsabilidade por desconstruir os privilégios brancos – e não apenas cobrar das pessoas negras que lutem pelos seus direitos. O mesmo processo tive que fazer com relação a minha masculinidade em meio a feministas, mesmo que o fato de ser gay de certa forma nos aliava em nossas lutas e formas de produzir conhecimento.
Imagino que foram essas alianças que fizeram com que Peter me protegesse nos momentos mais complicados que enfrentei na minha relação com a Igreja e mesmo com a minha instituição de formação. Além das portas abertas de sua casa, o empenho ativo em me proteger de determinadas perseguições e ajudar a encontrar caminhos foi fundamental para minha própria vida. Eram também os tempos de Richard Wangen e Wanda Deifelt. Sem eles e ela dificilmente teria sobrevivido e me tornado o teólogo que sou hoje. E nessa caminhada se somou também Jette, companheira de Peter, que primeiro foi minha amiga e provavelmente se demonstrasse mais empática nos momentos de raiva e indignação, por exemplo quando decidimos fazer camisetas com o slogan “há vida após a Igreja” e a ideia de comprar uma ilha e convidar somente pessoas legais para morar lá.
Em assuntos mais acadêmicos Peter me ajudou no processo de escrever uma monografia (trabalho semestral) sobre Maya Angelou como co-orientador. Uma das passagens mais interessantes sobre esse trabalho foi quando ele me apresentou a uma de suas estudantes como autor do trabalho que tinha indicado para ela ler. Surpresa ela me olhou e disse: “mas ele é branco”. Talvez esse seja um dos maiores elogios que já recebi, pois entendi que apesar de ser efetivamente branco e, por isso, portador de privilégios, de alguma forma eu podia me aliar e contribuir para a luta do povo negro, que deveria ser uma luta de todas e todos nós.
Nem sempre é fácil entender o Peter – e não apenas por seu português muito particular. Ele carrega muitas marcas sobre as quais raramente fala. Eu aprendi a entendê-lo assim, sem ter que entender, e respeitar como mestre e como amigo; respeitá-lo, mesmo quando ainda não tinha cabelos brancos, como na música de Chico César:
Se eu quero pixaim, deixa
Se eu quero enrolar, deixa
Se eu quero colorir, deixa
Se eu quero assanhar, deixa
Deixa, deixa a madeixa balançar

A homenagem a Peter Nash com a concessão do título de Doutor Honoris Causa, mais do que justa, é necessária. Ele influenciou uma geração de teólogas e teólogos que estudaram na Faculdades EST e, sem dúvida, seguirá influenciando muitas outras. Respeitem seus cabelos brancos! 

O Cu não tem nada a ver com o Cunha!

A única coisa que nos salva
A única coisa que nos une
A única utopia possível
É a utopia do cu

Gente! Vamos parar com essa coisa ridícula de associar “cu” com “cunha” em expressões como “vai tomar no CUnha”. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.


Nos últimos meses tenho escrito alguns textos breves refletindo sobre charges e representações que circulam nas redes sociais, tentando apontar para como reproduzimos e reforçamos, “quase sem pensar”, determinados padrões e sistemas de violência, particularmente no atual contexto de enfrentamento político vivido no Brasil. Falei sobre a cultura do estupro na representação de uma charge sobre o “caso Romero Jucá”, depois do “beijo entre Eduardo Cunha e Michel Temer”. Meu questionamento e minha indignação estão em como posicionamentos pretensamente libertadores e “politicamente corretos” estão carregados de sexismo, heterosexismo, machismo, homofobia e todos/as os/as seus/as parentes, achegados e relacionamentos (in)stáveis. E lá vamos nós de novo!

Muita gente já pesquisou e escreveu sobre essa fixação com o cu e tudo que ela representa em termos políticos, sociais e sexuais. Eu mesmo trabalhei o tema numa conferência publicada no livro “A religião entre o espetáculo e a intimidade” com o título de “Viado não nasce, estréia!’ ‘Não morre, vira purpurina’ – Diversidade sexual, performatividade e religião numa perspectiva queer”. E não posso de mencionar aqui meus grandes amigos e minhas grandes amigas do CuS (Grupo de Pesquisa em Cultura e Sexualidade) e o colega Leandro Colling na UFBA.

Existe uma infinidade de abordagens possíveis, mas vou aqui, pela brevidade do que pretendo escrever, e pela didaticidade que eu entendo que oferece, fazer uma breve reflexão que tem como base alguns construtos da psicologia e da psicanálise. Fundada em todos os tabus culturais e religiosos, essa fixação reforça a ideia de que o “cu” é um grande simulacro, interditado, que tem como objetivo controlar os corpos de homens e mulheres e determinar seu lugar social, transformando-se, ao mesmo tempo, num poderoso fetiche vendido e comprado a “preço de ouro” por quem tem o poder de decidir sobre o que fazer com o seu - e o dos outros e das outras. O cu também tem classe.

O cu não é coisa simples e ao mesmo tempo é total e fundamentalmente simples – tanto que “prisão de ventre”, que poderia ser “prisão de cu”, não raro é associada a diversos fatores de ordem emocional. Uma expressão bastante conhecida e popular nos círculos gays expressa essa simplicidade e poder do cu: “liberte seu cu e sua mente seguirá” (free your ass and your mind will follow), que se atribui não apenas a pessoas ou relações homossexuais (ou anais, nesse caso), mas a todas as pessoas presas a padrões e costumes opressores, que as prendem e amarram.

Nesse sentido, as associações entre “cu” e “Cunha” (referindo-se a um infeliz e pernicioso personagem de nossa política atual) reforçam a ideia de que há algo de errado, de sujo, de monstruoso e de perigoso com o cu – e com quem tem o cu livre. Perpetua-se o cu (interditado) como o símbolo máximo do poder masculino, patriarcal, higienista... que deprecia e violenta o corpo e suas necessidades básicas. Ou o que seria de nós sem cu? 

Surpreendentemente essa compreensão vem justamente daqueles e daquelas que defendem “relações naturais” no campo da sexualidade, ao mesmo tempo em que demonizam essa região aparentemente tão “natural” do corpo humano. Provando mais uma vez que até o cu sofre das síndromes de construção social e cultural por parte daqueles e daquelas que negam qualquer forma de construção social e cultural ou mesmo a criação de Deus como um processo aberto e dialógico.

Mas para não me alongar... podemos fazer crítica política de maneira mais inteligente e sem repetir padrões opressores e violentos, eu acredito! Sair das fórmulas fáceis e rasas de construção do outro ou da outra como inimigo/a e sexualmente pervertido/a! Questionar os lugares comuns e criar outras representações de nossos sonhos e de nossas utopias!
Pois se duvidar... “até Deus tem”!



O sexo da política e a política do sexo!

Valei-me nossa senhora dos movimentos e estudos feministas, de gênero e queer!
Que tá difícil de lidar com a cultura da homofobia nos discursos pseudopolíticos dessa nação!
Mas vamos lá!
Há algumas semanas, após o crime de estupro perpetrado contra uma adolescente de 16 anos por mais de 30 homens circulou uma charge que retratava Michel Temer vestido de mulher “bela, recatada e do lar” questionando Romero Jucá representado como uma mulher com um vestido curto por ter dito e feitos coisas que não devia ter dito e feito. Então escrevi uma breve nota em 7 pontos refletindo sobre como esse tipo de representação perpetuava a cultura do estupro sendo questionada em todos os cantos – e aprovada em outros. A crítica política vinha revestida do (pior) heterossexismo que inferioriza mulheres e todas as pessoas que não se encaixam em seus padrões.
Então o massacre na boate Pulse, em Orlando – EUA, provocou nova comoção mundial diante do assassinato de 50 pessoas, durante a realização de uma festa latina na casa noturna identificada como LGBT. Entre as várias informações que circularam sobre o evento, sobre o autor do crime e sobre suas motivações mencionou-se que ele havia ficado muito irritado em certa ocasião por ver dois homens se beijando.
Qual não foi minha surpresa que, no dia em que o relatório que pede a cassação do mandato de Eduardo Cunha foi aprovado pela Comissão de Ética da Câmara de Deputados/as, em meio a comemorações pela aparente vitória das “instituições democráticas” circulou uma nova charge. Dessa vez, Michel Temer e Eduardo Cunha aparecem se beijando na boca. Quero pressupor que se trata de uma crítica a ambos os políticos e suas práticas antidemocráticas e criminosas.
E vamos nós de novo fazer ataques a figuras públicas usando (a pior) heteronormatividade que identifica supostos criminosos com dois homens se beijando, pois não há forma mais clara de ridiculariza-los – e promover a cultura da homofobia! Imagino que, nesse caso, nãos seja preciso desenhar ponto a ponto... mas me disponho a faze-lo caso fique alguma dúvida.
O colega e amigo Hugo Córdova escreveu um brilhante texto mostrando a articulação de diversas questões no massacre de Orlando, incluindo a forma como um certo discurso sobre a sexualidade é articulada com outras formas de preconceito e discriminação. A política (assim como a teologia) são sempre um discurso sexual. Mas uma democracia verdadeira não será construída sem a crítica sexual dos atuais sistemas chamados “democráticos”. A radicalização da democracia passa, necessariamente, pelo desmonte da cultural heteropatriarcal que segue ceifando vidas no Rio de Janeiro, em Orlando, e na casa do vizinho.
O incômodo que provoca um beijo entre dois homens (como gesto de carinho, afeto, amor) e serve de justificativa para matar ou discriminar homossexuais é o mesmo que entende que a outra representação de dois homens se beijando (como crítica política) é algo que deveria causar o riso ou um sentimentozinho de vingança satisfeita. Tá tudo no campo da cultura homofóbica.
Valei-me!


Eu morri ontem em Orlando! Nós morremos ontem em Orlando!

Eu morri ontem em Orlando
Nós morremos ontem em Orlando
Provavelmente não haja mais muito o que ser dito sobre o massacre ocorrido na Boate Pulse, em Orlando, nos Estados Unidos. E ainda assim muito teremos que falar sobre o massacre ocorrido na Boate Pulse, em Orlando, nos Estados Unidos.
Eu morri ontem em Orlando!
Não apenas porque me identifico como homem gay, mas porque compartilho a humanidade daqueles e daquelas que lá morreram, porque sou cristão e porque minha fé me ensina que quando alguém sofre todxs sofremos.
Nós morremos ontem em Orlando!
Não apenas aqueles e aquelas de nós que não preenchem os requisitos da norma heterocêntrica (incluindo pessoas auto identificadas como heterossexuais), a assim chamada comunidade/população LGBTIQ, mas todxs que fazem parte da criação de D*s, que são imagem e semelhança de D*s, pois foi essa imagem e semelhança que foi morta. 
E D*s morreu conosco!
Ainda no sábado conversávamos sobre o significado de abominações no Levítico, os motivos da destruição de Sodoma e Gomorra, as traduções de arsenokoitai e malakoi (termos gregos) e do sentido de “contra a natureza” em Paulo. E pessoas eram mortas em Orlando, ou nas ruas do Brasil, por causa da disputa pelo sentido desses termos e dessas narrativas. Sim meus irmãos e minhas irmãs: enquanto gastamos horas em discussões exegéticas e hermenêuticas sobre esses textos, o evangelho da vida e da justiça se esvai pelo ralo e morremos todxs um pouquinho. Não, não dá para resolver esse dilema com slogans fáceis como “amar o pecador e condenar o pecado”. Nós temos o direito de sermos amadxs por inteiro! E não há pecado em nosso amor!
Também não temos tempo para ficar discutindo se a motivação para o massacre foi mais uma ou mais outra. Foram ambas e muitas mais. O terror que faz com que pessoas LGBTIQ não saiam de casa com medo de sofrerem violência nas boates ou nas ruas ou nas igrejas; o terror que faz com que mulheres não andem sozinhas na rua com medo de serem estupradas; o terror de imigrantes que não ultrapassam as fronteiras com medo da prisão e deportação ou até mesmo da morte; o terror de quem teve suas terras e moradias saqueadas pelos grandes interesses econômicos que sangram com juros, lucros e outras invenções em forma de commodities; o terror de quem vê que o salário não vai chegar até o final do mês para comprar comida e pagar as contas, de quem não pode adoecer porque não tem plano de saúde; o terror... revestido, ou não, de religião!
Eu morri ontem em Orlando!
Nós morremos ontem em Orlando!
Assim como morremos a cada dia nos quatro cantos do nosso país, na Palestina, na Europa ou nos Estados Unidos. Nossa humanidade e nossa relação com o mundo que nos cerca é roubada e não se trata de um debate acadêmico para saber quem, no final, tem razão. É a vida que vai sendo morta em nossos corpos, no corpo do mundo e no corpo de D*s, mesmo quando é feito em nome dEle.
D*s morreu ontem em Orlando!
E ressuscitará! Junto com todxs aquelxs que foram mortos em seu nome!

Enquanto isso resistimos, lutamos e choramos a dor de termos sido mortxs... também em Orlando.

Sobre como fundamentalistas têm ajudado o feminismo e os movimentos pela diversidade sexual e de gênero

Até bem pouco tempo termos, conceitos, siglas e expressões como gênero, diversidade sexual, LGBT, homofobia e até mesmo “queer” eram virtualmente desconhecidos fora de alguns círculos de grupos de ativistas e de reflexão acadêmica. As estratégias usadas por lideranças e grupos conservadores e fundamentalistas era o silêncio e a invisibilidade. Se não se fala sobre isso... isso não existe. Aparentemente essa estratégia não funciona mais. A ideia agora é demonizar e criar pânico sobre as possíveis consequências apocalípticas e catastróficas que as questões levantadas por essas discussões, pelas pessoas e grupos que se articulam politicamente ao redor delas podem provocar para uma população supostamente ingênua e incapaz de refletir por si mesma sobre elas. E não é possível dizer que essa nova estratégia não tem tido algum sucesso tendo em vista os vários casos concretos (alteração de legislação, aumento da violência, criação de um clima de ódio) onde isso pode ser comprovado.
Mas essa estratégia não é nova e nem de uso exclusivo de grupos conservadores e fundamentalistas que operam dentro de uma ideologia heteronormativa, classista e racista. Sim, eles também têm uma ideologia, embora raramente o explicitem dessa forma. A estratégia de demonizar e desumanizar o outro ou a outra talvez seja a mais comum em todos os empreendimentos de manutenção do status quo opressivo e excludente, violento e colonizador. Não se usa mais (da mesma forma como se usava no passado) fogueiras, afogamento, guilhotinas, paredão, câmaras de gás. Esses instrumentos de extermínio e aniquilação se apresentam hoje de formas diferentes, tão ou mais cruéis que aqueles utilizados em outros períodos históricos. Mas a ênfase discursiva agora parece estar mais no acolhimento amoroso e gentil para a recondução dos desviados e das desviadas ao repasto bucólico e tranquilo através da promessa de paz e harmonia. Cria-se um clima de caos, desordem, loucura e insegurança para dizer que a culpa é “dos outros, das outras”. Mas isso já é sabido e explicar o fenômeno não é a (única) estratégia, e talvez nem a mais eficiente, para fazer frente a essa avalanche que pretende acuar e imobilizar.
Juntamente com o alvoroço em torno das questões de gênero, da diversidade sexual, dos estudos queer, da discussão sobre homofobia veio um interesse crescente por esses temas. Muitas e muitos de nós que temos trabalhado com essas questões temos recebido desde pedidos informais e pessoais para explicar do que se trata até oportunidade de falar em eventos, cursos, espaços públicos de debate. De certo havia uma certa verdade no fato de que se a gente começar a falar sobre essas coisas as pessoas vão ficar curiosas e vão querer saber mais – e talvez até mudar de opinião. Parece que já é tarde demais. O negócio tá na boca do povo.
Talvez o mais surpreendente seja que aqueles e aquelas que não queriam falar sobre o assunto de repente se veem obrigadas e obrigados a estudar e conhecer – e até falar sobre ele. Não são poucos os exemplos de palestras, aulas, cursos, textos, blogs, programas de rádio e TV que têm aparecido e circulado por aí nos quais pessoas e lideranças fundamentalistas e conversadoras – inclusive no campo teológico – têm “apresentado” as questões de diversidade sexual e de gênero de uma maneira minuciosa e informada e às vezes nem eu sei se faria melhor. Ando aprendendo bastante inclusive. Contam com a prerrogativa de que têm autoridade e capacidade de convencimento para que suas reflexões e interpretações sobre as questões apresentadas sejam o suficiente para convencer as pessoas das tais ameaças catastróficas e diabólicas que essas questões representam. Dito de outra maneira, contam com a suposta ignorância e incapacidade de reflexão das pessoas a quem se dirigem. E seguramente há muita má fé e manipulação ideológica na forma como o fazem para atingir esse objetivo, não há dúvida. Também não é novo.
Do ponto de vista de quem tem trabalhado e lutado pela justiça social com justiça de gênero e sexual, podem estar prestando um grande serviço. Não só porque colocam essas temáticas em pauta e oportunizam o acesso a informações (ainda que apresentadas de maneiras altamente ideologizadas), mas porque as experiências cotidianas das pessoas vão encontrando eco nas questões levantadas e outros significados podem ser e são construídos. A dose de medo introduzida nessa equação que visa provocar o pânico representa sempre um risco na medida em que, quando ministrada em excesso, pode acionar outros processos que já não estão mais sob seu controle. Também por isso o discurso vem geralmente equilibrado com flexibilizações no âmbito do próprio gênero e da sexualidade – e com pitadas grandes de amor. Já não se elimina ou demoniza o prazer e o gozo da sexualidade e já não se restringe ou inferioriza o lugar e o papel das mulheres de modo absoluto. No mundo do poder do capital tudo vira produto – desde que a gente continue detendo o direito de patente.
O ponto é que nunca se tinha chegado a um grau de popularização e de pre-ocupação tão grande sobre essas questões como desde quando frentes conservadoras e fundamentalistas começaram a se ocupar de modo tão sistemático e detalhado com elas. Nesse caso, ainda poderá ser válido o ditado que diz “falem mal, mas falem”, pois o silêncio total representaria o aniquilamento. Essa com certeza não é a única – e talvez nem seja a melhor maneira – de olhar para a relação entre fundamentalismo e conservadorismo e diversidade sexual e de gênero no contexto atual. Não desconheço, ignoro ou deixo de me preocupar com as tragédias que temos visto em vários setores, provocadas pelas reações aos avanços e às conquistas nessas áreas. Não tenho dúvida de que eles mais atrapalham do que ajudam e de que a vida seria mais fácil sem eles. Mas se o tamanho da reação é proporcional ao tamanho do incômodo gerado, tendo a pensar que o trabalho feito até agora teve resultados importantes.

De qualquer forma, essas são questões sobre as quais temos pensado e conversado em alguns espaços e que talvez nos animem no processo árduo de disputa que temos pela frente. A tarefa que segue é, pelo menos, dupla: entender esse novo contexto e construir novas estratégias que permitam aprofundar essas discussões e continuar realizando o trabalho de resistência e luta já vinha sendo feito – nos movimentos sociais, nos espaços acadêmicos, nos governos, nas igrejas – e retomar onde deixou de ser feito por acreditar que as conquistas estavam consolidadas. Além disso, será necessário continuar vigilante e enfrentando as estratégias que vão se reconfigurando e que vão derrubando conquistas e retirando direitos. O trabalho de desconstrução das distorções e manipulações continuará tendo que ser feito. Mas agora, em muitos casos, já partimos de um outro lugar. Precisaremos, mais do que nunca, construir formas de apoio, colaboração e cuidado mútuo para nos fortalecer enquanto movimento. A outra velha estratégia – dividir para conquistar – segue também firme e forte.

Material publicado na Inglaterra - "Modelos cristãos a seguir"


Esse livro se concentra nas experiências de pessoas cristãs ao redor do mundo. Suas histórias e suas tradições religiosas são todas diferentes: algumas são ministros ou ministras, algumas estão em relacionados, outras fora presas. Algumas das pessoas nesse livro se identificam como lésbica, gay, bissexual ou trans, e outras são fortes aliadas. Mas o que todas compartilham é a fé de que Deus é amor e aceitação.


Quando nos começamos esse projeto, nossa intenção era compartilhar histórias e experiências de uma gama diversa de participantes, para demonstrar como as experiências de pessoas LGBT de fé e seus aliados e suas alidadas podem ter diferenças entre si, mas também têm semelhanças impressionantes.