Quem sou eu

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Bacharel, Mestre e Doutor em Teologia pela Escola Superior de Teologia (EST). Área de Concentração: Teologia Sistemática. Pesquisador nas áreas de: Estudos Feministas, Teorias de Gênero, Teoria Queer, Masculinidade, Homossexualidade e Diversidade Sexual, na sua relação com Religião e Teologia.

O Cu não tem nada a ver com o Cunha!

A única coisa que nos salva
A única coisa que nos une
A única utopia possível
É a utopia do cu

Gente! Vamos parar com essa coisa ridícula de associar “cu” com “cunha” em expressões como “vai tomar no CUnha”. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.


Nos últimos meses tenho escrito alguns textos breves refletindo sobre charges e representações que circulam nas redes sociais, tentando apontar para como reproduzimos e reforçamos, “quase sem pensar”, determinados padrões e sistemas de violência, particularmente no atual contexto de enfrentamento político vivido no Brasil. Falei sobre a cultura do estupro na representação de uma charge sobre o “caso Romero Jucá”, depois do “beijo entre Eduardo Cunha e Michel Temer”. Meu questionamento e minha indignação estão em como posicionamentos pretensamente libertadores e “politicamente corretos” estão carregados de sexismo, heterosexismo, machismo, homofobia e todos/as os/as seus/as parentes, achegados e relacionamentos (in)stáveis. E lá vamos nós de novo!

Muita gente já pesquisou e escreveu sobre essa fixação com o cu e tudo que ela representa em termos políticos, sociais e sexuais. Eu mesmo trabalhei o tema numa conferência publicada no livro “A religião entre o espetáculo e a intimidade” com o título de “Viado não nasce, estréia!’ ‘Não morre, vira purpurina’ – Diversidade sexual, performatividade e religião numa perspectiva queer”. E não posso de mencionar aqui meus grandes amigos e minhas grandes amigas do CuS (Grupo de Pesquisa em Cultura e Sexualidade) e o colega Leandro Colling na UFBA.

Existe uma infinidade de abordagens possíveis, mas vou aqui, pela brevidade do que pretendo escrever, e pela didaticidade que eu entendo que oferece, fazer uma breve reflexão que tem como base alguns construtos da psicologia e da psicanálise. Fundada em todos os tabus culturais e religiosos, essa fixação reforça a ideia de que o “cu” é um grande simulacro, interditado, que tem como objetivo controlar os corpos de homens e mulheres e determinar seu lugar social, transformando-se, ao mesmo tempo, num poderoso fetiche vendido e comprado a “preço de ouro” por quem tem o poder de decidir sobre o que fazer com o seu - e o dos outros e das outras. O cu também tem classe.

O cu não é coisa simples e ao mesmo tempo é total e fundamentalmente simples – tanto que “prisão de ventre”, que poderia ser “prisão de cu”, não raro é associada a diversos fatores de ordem emocional. Uma expressão bastante conhecida e popular nos círculos gays expressa essa simplicidade e poder do cu: “liberte seu cu e sua mente seguirá” (free your ass and your mind will follow), que se atribui não apenas a pessoas ou relações homossexuais (ou anais, nesse caso), mas a todas as pessoas presas a padrões e costumes opressores, que as prendem e amarram.

Nesse sentido, as associações entre “cu” e “Cunha” (referindo-se a um infeliz e pernicioso personagem de nossa política atual) reforçam a ideia de que há algo de errado, de sujo, de monstruoso e de perigoso com o cu – e com quem tem o cu livre. Perpetua-se o cu (interditado) como o símbolo máximo do poder masculino, patriarcal, higienista... que deprecia e violenta o corpo e suas necessidades básicas. Ou o que seria de nós sem cu? 

Surpreendentemente essa compreensão vem justamente daqueles e daquelas que defendem “relações naturais” no campo da sexualidade, ao mesmo tempo em que demonizam essa região aparentemente tão “natural” do corpo humano. Provando mais uma vez que até o cu sofre das síndromes de construção social e cultural por parte daqueles e daquelas que negam qualquer forma de construção social e cultural ou mesmo a criação de Deus como um processo aberto e dialógico.

Mas para não me alongar... podemos fazer crítica política de maneira mais inteligente e sem repetir padrões opressores e violentos, eu acredito! Sair das fórmulas fáceis e rasas de construção do outro ou da outra como inimigo/a e sexualmente pervertido/a! Questionar os lugares comuns e criar outras representações de nossos sonhos e de nossas utopias!
Pois se duvidar... “até Deus tem”!



O sexo da política e a política do sexo!

Valei-me nossa senhora dos movimentos e estudos feministas, de gênero e queer!
Que tá difícil de lidar com a cultura da homofobia nos discursos pseudopolíticos dessa nação!
Mas vamos lá!
Há algumas semanas, após o crime de estupro perpetrado contra uma adolescente de 16 anos por mais de 30 homens circulou uma charge que retratava Michel Temer vestido de mulher “bela, recatada e do lar” questionando Romero Jucá representado como uma mulher com um vestido curto por ter dito e feitos coisas que não devia ter dito e feito. Então escrevi uma breve nota em 7 pontos refletindo sobre como esse tipo de representação perpetuava a cultura do estupro sendo questionada em todos os cantos – e aprovada em outros. A crítica política vinha revestida do (pior) heterossexismo que inferioriza mulheres e todas as pessoas que não se encaixam em seus padrões.
Então o massacre na boate Pulse, em Orlando – EUA, provocou nova comoção mundial diante do assassinato de 50 pessoas, durante a realização de uma festa latina na casa noturna identificada como LGBT. Entre as várias informações que circularam sobre o evento, sobre o autor do crime e sobre suas motivações mencionou-se que ele havia ficado muito irritado em certa ocasião por ver dois homens se beijando.
Qual não foi minha surpresa que, no dia em que o relatório que pede a cassação do mandato de Eduardo Cunha foi aprovado pela Comissão de Ética da Câmara de Deputados/as, em meio a comemorações pela aparente vitória das “instituições democráticas” circulou uma nova charge. Dessa vez, Michel Temer e Eduardo Cunha aparecem se beijando na boca. Quero pressupor que se trata de uma crítica a ambos os políticos e suas práticas antidemocráticas e criminosas.
E vamos nós de novo fazer ataques a figuras públicas usando (a pior) heteronormatividade que identifica supostos criminosos com dois homens se beijando, pois não há forma mais clara de ridiculariza-los – e promover a cultura da homofobia! Imagino que, nesse caso, nãos seja preciso desenhar ponto a ponto... mas me disponho a faze-lo caso fique alguma dúvida.
O colega e amigo Hugo Córdova escreveu um brilhante texto mostrando a articulação de diversas questões no massacre de Orlando, incluindo a forma como um certo discurso sobre a sexualidade é articulada com outras formas de preconceito e discriminação. A política (assim como a teologia) são sempre um discurso sexual. Mas uma democracia verdadeira não será construída sem a crítica sexual dos atuais sistemas chamados “democráticos”. A radicalização da democracia passa, necessariamente, pelo desmonte da cultural heteropatriarcal que segue ceifando vidas no Rio de Janeiro, em Orlando, e na casa do vizinho.
O incômodo que provoca um beijo entre dois homens (como gesto de carinho, afeto, amor) e serve de justificativa para matar ou discriminar homossexuais é o mesmo que entende que a outra representação de dois homens se beijando (como crítica política) é algo que deveria causar o riso ou um sentimentozinho de vingança satisfeita. Tá tudo no campo da cultura homofóbica.
Valei-me!


Eu morri ontem em Orlando! Nós morremos ontem em Orlando!

Eu morri ontem em Orlando
Nós morremos ontem em Orlando
Provavelmente não haja mais muito o que ser dito sobre o massacre ocorrido na Boate Pulse, em Orlando, nos Estados Unidos. E ainda assim muito teremos que falar sobre o massacre ocorrido na Boate Pulse, em Orlando, nos Estados Unidos.
Eu morri ontem em Orlando!
Não apenas porque me identifico como homem gay, mas porque compartilho a humanidade daqueles e daquelas que lá morreram, porque sou cristão e porque minha fé me ensina que quando alguém sofre todxs sofremos.
Nós morremos ontem em Orlando!
Não apenas aqueles e aquelas de nós que não preenchem os requisitos da norma heterocêntrica (incluindo pessoas auto identificadas como heterossexuais), a assim chamada comunidade/população LGBTIQ, mas todxs que fazem parte da criação de D*s, que são imagem e semelhança de D*s, pois foi essa imagem e semelhança que foi morta. 
E D*s morreu conosco!
Ainda no sábado conversávamos sobre o significado de abominações no Levítico, os motivos da destruição de Sodoma e Gomorra, as traduções de arsenokoitai e malakoi (termos gregos) e do sentido de “contra a natureza” em Paulo. E pessoas eram mortas em Orlando, ou nas ruas do Brasil, por causa da disputa pelo sentido desses termos e dessas narrativas. Sim meus irmãos e minhas irmãs: enquanto gastamos horas em discussões exegéticas e hermenêuticas sobre esses textos, o evangelho da vida e da justiça se esvai pelo ralo e morremos todxs um pouquinho. Não, não dá para resolver esse dilema com slogans fáceis como “amar o pecador e condenar o pecado”. Nós temos o direito de sermos amadxs por inteiro! E não há pecado em nosso amor!
Também não temos tempo para ficar discutindo se a motivação para o massacre foi mais uma ou mais outra. Foram ambas e muitas mais. O terror que faz com que pessoas LGBTIQ não saiam de casa com medo de sofrerem violência nas boates ou nas ruas ou nas igrejas; o terror que faz com que mulheres não andem sozinhas na rua com medo de serem estupradas; o terror de imigrantes que não ultrapassam as fronteiras com medo da prisão e deportação ou até mesmo da morte; o terror de quem teve suas terras e moradias saqueadas pelos grandes interesses econômicos que sangram com juros, lucros e outras invenções em forma de commodities; o terror de quem vê que o salário não vai chegar até o final do mês para comprar comida e pagar as contas, de quem não pode adoecer porque não tem plano de saúde; o terror... revestido, ou não, de religião!
Eu morri ontem em Orlando!
Nós morremos ontem em Orlando!
Assim como morremos a cada dia nos quatro cantos do nosso país, na Palestina, na Europa ou nos Estados Unidos. Nossa humanidade e nossa relação com o mundo que nos cerca é roubada e não se trata de um debate acadêmico para saber quem, no final, tem razão. É a vida que vai sendo morta em nossos corpos, no corpo do mundo e no corpo de D*s, mesmo quando é feito em nome dEle.
D*s morreu ontem em Orlando!
E ressuscitará! Junto com todxs aquelxs que foram mortos em seu nome!

Enquanto isso resistimos, lutamos e choramos a dor de termos sido mortxs... também em Orlando.

Sobre como fundamentalistas têm ajudado o feminismo e os movimentos pela diversidade sexual e de gênero

Até bem pouco tempo termos, conceitos, siglas e expressões como gênero, diversidade sexual, LGBT, homofobia e até mesmo “queer” eram virtualmente desconhecidos fora de alguns círculos de grupos de ativistas e de reflexão acadêmica. As estratégias usadas por lideranças e grupos conservadores e fundamentalistas era o silêncio e a invisibilidade. Se não se fala sobre isso... isso não existe. Aparentemente essa estratégia não funciona mais. A ideia agora é demonizar e criar pânico sobre as possíveis consequências apocalípticas e catastróficas que as questões levantadas por essas discussões, pelas pessoas e grupos que se articulam politicamente ao redor delas podem provocar para uma população supostamente ingênua e incapaz de refletir por si mesma sobre elas. E não é possível dizer que essa nova estratégia não tem tido algum sucesso tendo em vista os vários casos concretos (alteração de legislação, aumento da violência, criação de um clima de ódio) onde isso pode ser comprovado.
Mas essa estratégia não é nova e nem de uso exclusivo de grupos conservadores e fundamentalistas que operam dentro de uma ideologia heteronormativa, classista e racista. Sim, eles também têm uma ideologia, embora raramente o explicitem dessa forma. A estratégia de demonizar e desumanizar o outro ou a outra talvez seja a mais comum em todos os empreendimentos de manutenção do status quo opressivo e excludente, violento e colonizador. Não se usa mais (da mesma forma como se usava no passado) fogueiras, afogamento, guilhotinas, paredão, câmaras de gás. Esses instrumentos de extermínio e aniquilação se apresentam hoje de formas diferentes, tão ou mais cruéis que aqueles utilizados em outros períodos históricos. Mas a ênfase discursiva agora parece estar mais no acolhimento amoroso e gentil para a recondução dos desviados e das desviadas ao repasto bucólico e tranquilo através da promessa de paz e harmonia. Cria-se um clima de caos, desordem, loucura e insegurança para dizer que a culpa é “dos outros, das outras”. Mas isso já é sabido e explicar o fenômeno não é a (única) estratégia, e talvez nem a mais eficiente, para fazer frente a essa avalanche que pretende acuar e imobilizar.
Juntamente com o alvoroço em torno das questões de gênero, da diversidade sexual, dos estudos queer, da discussão sobre homofobia veio um interesse crescente por esses temas. Muitas e muitos de nós que temos trabalhado com essas questões temos recebido desde pedidos informais e pessoais para explicar do que se trata até oportunidade de falar em eventos, cursos, espaços públicos de debate. De certo havia uma certa verdade no fato de que se a gente começar a falar sobre essas coisas as pessoas vão ficar curiosas e vão querer saber mais – e talvez até mudar de opinião. Parece que já é tarde demais. O negócio tá na boca do povo.
Talvez o mais surpreendente seja que aqueles e aquelas que não queriam falar sobre o assunto de repente se veem obrigadas e obrigados a estudar e conhecer – e até falar sobre ele. Não são poucos os exemplos de palestras, aulas, cursos, textos, blogs, programas de rádio e TV que têm aparecido e circulado por aí nos quais pessoas e lideranças fundamentalistas e conversadoras – inclusive no campo teológico – têm “apresentado” as questões de diversidade sexual e de gênero de uma maneira minuciosa e informada e às vezes nem eu sei se faria melhor. Ando aprendendo bastante inclusive. Contam com a prerrogativa de que têm autoridade e capacidade de convencimento para que suas reflexões e interpretações sobre as questões apresentadas sejam o suficiente para convencer as pessoas das tais ameaças catastróficas e diabólicas que essas questões representam. Dito de outra maneira, contam com a suposta ignorância e incapacidade de reflexão das pessoas a quem se dirigem. E seguramente há muita má fé e manipulação ideológica na forma como o fazem para atingir esse objetivo, não há dúvida. Também não é novo.
Do ponto de vista de quem tem trabalhado e lutado pela justiça social com justiça de gênero e sexual, podem estar prestando um grande serviço. Não só porque colocam essas temáticas em pauta e oportunizam o acesso a informações (ainda que apresentadas de maneiras altamente ideologizadas), mas porque as experiências cotidianas das pessoas vão encontrando eco nas questões levantadas e outros significados podem ser e são construídos. A dose de medo introduzida nessa equação que visa provocar o pânico representa sempre um risco na medida em que, quando ministrada em excesso, pode acionar outros processos que já não estão mais sob seu controle. Também por isso o discurso vem geralmente equilibrado com flexibilizações no âmbito do próprio gênero e da sexualidade – e com pitadas grandes de amor. Já não se elimina ou demoniza o prazer e o gozo da sexualidade e já não se restringe ou inferioriza o lugar e o papel das mulheres de modo absoluto. No mundo do poder do capital tudo vira produto – desde que a gente continue detendo o direito de patente.
O ponto é que nunca se tinha chegado a um grau de popularização e de pre-ocupação tão grande sobre essas questões como desde quando frentes conservadoras e fundamentalistas começaram a se ocupar de modo tão sistemático e detalhado com elas. Nesse caso, ainda poderá ser válido o ditado que diz “falem mal, mas falem”, pois o silêncio total representaria o aniquilamento. Essa com certeza não é a única – e talvez nem seja a melhor maneira – de olhar para a relação entre fundamentalismo e conservadorismo e diversidade sexual e de gênero no contexto atual. Não desconheço, ignoro ou deixo de me preocupar com as tragédias que temos visto em vários setores, provocadas pelas reações aos avanços e às conquistas nessas áreas. Não tenho dúvida de que eles mais atrapalham do que ajudam e de que a vida seria mais fácil sem eles. Mas se o tamanho da reação é proporcional ao tamanho do incômodo gerado, tendo a pensar que o trabalho feito até agora teve resultados importantes.

De qualquer forma, essas são questões sobre as quais temos pensado e conversado em alguns espaços e que talvez nos animem no processo árduo de disputa que temos pela frente. A tarefa que segue é, pelo menos, dupla: entender esse novo contexto e construir novas estratégias que permitam aprofundar essas discussões e continuar realizando o trabalho de resistência e luta já vinha sendo feito – nos movimentos sociais, nos espaços acadêmicos, nos governos, nas igrejas – e retomar onde deixou de ser feito por acreditar que as conquistas estavam consolidadas. Além disso, será necessário continuar vigilante e enfrentando as estratégias que vão se reconfigurando e que vão derrubando conquistas e retirando direitos. O trabalho de desconstrução das distorções e manipulações continuará tendo que ser feito. Mas agora, em muitos casos, já partimos de um outro lugar. Precisaremos, mais do que nunca, construir formas de apoio, colaboração e cuidado mútuo para nos fortalecer enquanto movimento. A outra velha estratégia – dividir para conquistar – segue também firme e forte.

Material publicado na Inglaterra - "Modelos cristãos a seguir"


Esse livro se concentra nas experiências de pessoas cristãs ao redor do mundo. Suas histórias e suas tradições religiosas são todas diferentes: algumas são ministros ou ministras, algumas estão em relacionados, outras fora presas. Algumas das pessoas nesse livro se identificam como lésbica, gay, bissexual ou trans, e outras são fortes aliadas. Mas o que todas compartilham é a fé de que Deus é amor e aceitação.


Quando nos começamos esse projeto, nossa intenção era compartilhar histórias e experiências de uma gama diversa de participantes, para demonstrar como as experiências de pessoas LGBT de fé e seus aliados e suas alidadas podem ter diferenças entre si, mas também têm semelhanças impressionantes.




Uma carta – ou sobre como quase vir a ser


Suponha que uma carta tenha sido escrita em algum momento e fosse enviada a uma instância superior atacando seus direitos humanos fundamentais e buscando interferir na sua vida pessoal, profissional e pública. Uma carta qualquer. Com remetente, endereço e destinatário.
Havia tempos em que uma carta demorava a chegar. Às vezes até se sabia o conteúdo antecipadamente, mas o prazer ou a frustração ao recebê-la, abri-la, tocá-la, tinha uma excitação especial. No mundo virtual de hoje talvez isso se transfira para os sinais eletrônicos emitidos pelos aparelhos assim que a sincronização automática atesta que “you’ve got mail”. E há formas mais sucintas e rápidas de transmitir mensagens cada vez mais telegráficas (entende?). O modelo ou o formato, na verdade, não estão em discussão aqui, pois de certa forma são relativos. O que gostaria de imaginar é a ideia de tornar-se “sujeito” de alguém que me reconheça como “objeto” de uma intervenção inserindo-me no universo linguístico de uma carta – ou de uma fofoca -, mas também na materialidade da política onde a vida é produzida e reproduzida. Como nos meus espaços de trabalho e de militância.
As cartas circulam por aí. Algumas com endereço e destinatário/a. Algumas com endereço e destinatário/a equivocado/a, ou destinadas e endereçadas equivocadamente. Há cartas sem endereço ou destinatário/a e até mesmo anônimas – às vezes necessárias, às vezes perniciosas. Eu mesmo já fui advertido sobre o caráter epistolar de algumas de minhas cartas. Especialmente quando são “abertas”, quando refletem a ausência ou a desistência da possibilidade de diálogo. Quando todas as tentativas e possibilidades de um diálogo face a face foram esgotadas e resta jogar palavras ao vento; às fezes feitas de carne. Às vezes feitas carne.
Há cartas que chegam onde deviam chegar e outras que se perdem no caminho – das burocracias, dos lapsos, dos desencontros, da ação divina... E aqui estou eu escrevendo uma. Falando de coisas que não me disseram, refletindo sobre coisas que eu não li, discorrendo sobre coisas que nunca foram escritas. Justamente por isso, não se trata de uma resposta, mas de provocar a excitação, o prazer e a frustração, um pouco de dor e sofrimento, que emergem de uma carta que eu poderia ter recebido ou dessa que eu estou escrevendo.
Uma tal carta referindo-se a mim não seria incomum. Não que eu me ache especial o suficiente para que alguém gaste tempo escrevendo uma carta para/sobre mim. Mas é que ultimamente meu nome anda correndo em boca de Matildxs. A carta poderia pedir minha demissão sumária, me deixando desempregado. Poderia inclusive atestar uma suposta influência prejudicial e questionável de minha parte através do meu trabalho ou do meu engajamento político e solicitar a instituição de alguma instância reconhecida que proferisse uma sentença sobre o que eu digo, sobre o que eu faço, sobre o que eu sou – ou estou sendo. Embora não me surpreendesse, me machucaria – porque há certas feridas que não saram nunca, ou dificilmente. E nem seria uma estratégia tão nova e criativa assim.
O que seria mais ou menos incomum numa tal carta seria o reconhecimento de uma autoridade concedida por diploma – por exemplo, invocando meu nome precedido das potentes e respeitosas letras “Dr”. Mais incomum ainda seria o reconhecimento de que esse título vem acompanhado de uma produção intelectual fruto de muito trabalho – a ponto de ser citada e sugerida a sua refutação por um tal tribunal a ser constituído. Não tão incomum, mas ainda assim digno de nota, seria o reconhecimento da minha militância política e a sua relação com a minha produção intelectual – o que me honraria muito, pois seria uma interpretação corretíssima e à qual subscreveria. Embora me surpreendesse, eu acharia digno e o/a/s remetente/s pelo menos informado/a/s o suficiente para reconhecer a minha existência e com isso um caso a interpelar.
O silêncio é poderoso. A falta de notícias, a ausência de cartas, ou de respostas. Talvez por isso eu fale tanto – e escreva menos do que eu gostaria. É difícil romper as paredes espessas do silêncio e nem sempre as estratégias usadas são as mais eficazes. Por muito tempo minha existência tem sido negada – pelo menos em alguns espaços – e eis que nomear-me me daria o poder de existir e tornar-me agente, mesmo em espaços vigiados e censurados. O fato de não ser mencionado me mantem no limbo de quem não é digno de ser levado a sério. Uma carta, um documento, uma mensagem qualquer legível e reconhecível me tiraria desse limbo - inadvertidamente, causando uma série de consequências, talvez não previstas.
Diante de tal inusitado – ou nem tanto assim – fragmento acusatório, alguns/as se sentiriam vingados/as, deleitar-se-iam com a possibilidade da execração suprema e definitiva. Alguns/as viriam em auxílio, trocando alhos por bugalhos para me proteger da minha própria existência e suas consequências (para quem mesmo?). Apostariam, talvez, na minha competência – aquilo que já teria sido reconhecido pela própria carta e que precisamente teria afirmado a minha existência e a possibilidade de agência – mantendo o elefante branco bem no meio da sala. Como reconhecimento da minha competência (e seria falsamente humilde se não a reconhecesse eu mesmo, juntamente com minhas limitações), alguns/as usariam, corajosamente – eu reconheceria – o “deixa disso... quanto mais mexe mais... vamos fingir que isso não existiu”. Engavetariam uma possibilidade real de debate aberto e honesto – não sobre mim em particular, mas sobre tudo o que uma tal carta com destinatário específico e endereço equivocado representaria para um grupo social específico e as estruturas que mantem as instituições funcionando. Ao contrário, teriam que assumir os óbvios riscos de tal possibilidade e calcular a viabilidade de corrê-los.
Companheiros e companheiras, o problema não seria a competência ou a falta dela! Ela estaria pressuposta e justamente seria o problema com relação ao que realmente está em discussão: a sexualidade e sua capacidade contagiosa expressa através da presença física e da reconhecida militância – ou compromisso político e intelectual nessa área. A pergunta seria: faz ou não faz diferença ter um profissional homossexual assumido e militante entre os profissionais que atuam numa dada instituição. E é a essa pergunta que temos tanto medo de responder – talvez porque ainda não entendamos o seu real poder político nesse caso explicitado de transformação da realidade social. Não é justamente isso que argumentamos quando insistimos na presença física de mulheres entre nós? A competência eu já tenho, mas é só isso que me torna um profissional importante numa determinada instituição ou essa é apenas a justificativa que usamos para ficar dentro dos limites da lei e da burocracia e não nos posicionarmos politicamente? De qualquer forma, provisoriamente, eu aceitaria essa estratégia.
Na possível existência e envio de tal carta outros/as talvez corressem em meu socorro, sugeririam estratégias, possibilidades, tomariam iniciativas que ampliassem o público e a discussão e poriam em pauta o real problema. Tipo movimento social, luta, engajamento político, militância organizada. Essas coisas das quais quase nos viemos a envergonhar em nome da burocracia institucional. Outros/as, ainda, ficariam em silêncio, entre as supostas opções mais estratégicas e a possibilidade de estarem equivocadas. Haveria excitação, prazer e frustração, e um pouco de sofrimento de minha parte, mas a todos/as reconheceria o direito de pensarem e agirem segundo as suas convicções, suas informações e suas maneiras de ver o mundo em geral e a minha situação em particular – e claro que faria os meus próprios julgamentos que não sou santo, nem almejo tal nobre título a menos que venha acompanhado de pecador, para ser fiel à tradição luterana.
Se por ventura uma tal carta chegasse a ser escrita, endereçada a mim e eu fosse convidado para o diálogo, responderia. Não necessariamente com argumentos acadêmicos ou citações doutrinárias (embora também os tenha disponíveis). Responderia especialmente se esta carta fosse escrita por pessoas que eu não conheço, não sei quem são, pois me daria a oportunidade de conhecê-las, de entender suas motivações, suas histórias e o que faria com que atribuíssem a mim um poder tão grande como o de influenciar (ou persuadir?) outras pessoas, com a minha existência, com o exercício de minha profissão, com minha competência. Agradeceria, também, por me levaram a sério a ponto de chegarem a escrevê-la e pediria a chance de me conhecerem, de me olharem face a face e tentarem entender a minha própria história – pessoal, profissional, de fé.
Enquanto essa carta não vem quem escreve uma carta sou EU - a quem interessar possa. O faço porque antecipo sua chagada, com excitação, prazer e frustração, e um pouco de sofrimento, pois que a vida me endureceu para certas coisas, mas algumas feridas não cicatrizam nunca, ou dificilmente. Quando ela chegar – se é que ela chegará -, espero ter a coragem, as condições objetivas e subjetivas para me manifestar livremente e usar todos os instrumentos justos, reconhecidos e legais para me proteger se esse for o caso. E espero não estar sozinho.

Nova Rede Inter-religiosa Global (GIN-SSOGIE) - Comunicado de imprensa


É com muito prazer e orgulho que anunciamos o estabelecimento formal da Rede Inter-religiosa Global para Pessoas de todos os Sexos, Orientações Sexuais, Identidades e Expressões de Gênero (GIN-SSOGIE) como resultado de nossa primeira conferência anual, acontecida na África do Sul em janeiro de 2014.

A ideia de uma rede global de militantes desenvolvendo atividades que envolvem fé e questões de sexos, orientações sexuais, identidades e expressões de gênero germinou na Conferência Mundial de 2012 da Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, pessoas Transgênero e Intersexo (ILGA) em Estocolmo. GIN reconhece uma necessidade urgente de erradicar a violência, criminalização e perseguição de nossa comunidade baseada em religião.

 A conferência da África do Sul reuniu 68 delegados/as de mais de 35 países, representando uma grande variedade de crenças e denominações. Os/as participantes representaram uma autêntica e rica diversidade de sexos, orientações sexuais e identidades e expressões de gênero que são parte da família humana. Desde o primeiro dia, GIN centrou sua base de liderança e organização nos países onde violência e intolerância são mais fortes, incluindo, mas não se limitando, a lugares no Sul Global.

O encontro de quatro dias focou nos pilares que fundamentam nosso trabalho: criação de espaços seguros, habilidades organizacionais, recursos acadêmicos e relacionados às escrituras, estruturas fundantes, e construção de uma nova narrativa inclusiva e a partir das convicções de fé nos espaços de debate sobre direitos humanos.
 
O Comitê Gestor, eleito a partir de uma membresia singularmente diversa representando muitas crenças e experiências, disse isso sobre o propósito dessa nova rede: “Pessoas de todo o mundo têm trabalhado juntas desde distintas culturas e crenças para dar à luz uma nova organização e uma nova narrativa sobre direitos humanos e religião.

GIN tem a intenção de criar solidariedade entre as pessoas de fé de nossas comunidades, promover o diálogo inter-religioso, e fortalecer nossas vozes dentro de nossas instituições e estruturas que governam nossas vidas. Buscamos superar a separação falsamente fabricada entre nossa comunidade e as tradições de fé”.

GIN também proverá recursos, treinamentos, e programas coletivos para ajudar indivíduos e organizações a se engajarem em diálogo construtivo e significativo com lideranças religiosas e defender a dignidade e os direitos em âmbito regional e internacional. Os objetivos da GIN são compreensão, respeito, inclusão e aceitação mútuas.

Rede Inter-religiosa Global

Nossa visão é de um mundo justo no qual dignidade, fé, espiritualidade e direitos humanos de pessoas de todos os sexos, orientações sexuais, identidades e expresses de gênero sejam honradas, apoiadas e protegidas

Email: GIN.communications@gmail.com
Twitter: @ginssogie
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