Sobre as eleições e o futuro da nação

Quem me acompanhou nas redes sociais viu meu envolvimento nas eleições municipais desse ano. Não consegui participar tão ativamente como gostaria da discussão interna do Partido das Trabalhadoras e dos Trabalhadores (quanto a programa e estratégias eleitorais) nem da campanha propriamente dita (de debates, conversas, diálogos nas ruas). Mas me envolvi como pude (inclusive contrariando algumas recomendações), pois entendo que é um processo importante para as cidades brasileiras e, no meu caso, especialmente para a cidade onde vivo e trabalho. Assumi esse compromisso com toda a liberdade e convicção com que tento levar a minha vida. Mas também com muita clareza e perspectiva crítica com relação aos processos eleitorais em geral e esse em particular.
Durante esse período participei de conversas e planejamentos (especialmente no âmbito proporcional), falei com outras pessoas sobre as candidaturas que apoiei, divulguei e distribuí materiais impressos e digitais, contribuí financeiramente, adesivei meu carro, coloquei placa no meu apartamento (como é no terceiro andar ninguém conseguiu arrancar), fui em plenárias e caminhadas. Fiquei também com medo e até constrangido em algumas situações por conta de um extremo conservadorismo tomado de ódio, por um lado, e por questões conjuntais, pelo outro. Vi e ouvi muitas coisas que me dão esperança e um tanto de outras que tornam o contexto em que vivemos ainda mais desesperador.
No momento o que mais se fala é sobre a “derrocada do PT” (Partido ao qual sou filiado) ou da esquerda como um todo. Há diversas análises muito apropriadas sobre todo esse cenário que devem ser levadas muito a sério, especialmente por quem acredita em outros mundos possíveis (expressão que já carrega em si uma certa conotação política pelo seu uso histórico) e por quem entende que os processos políticos locais e globais não estão isolados. Mas também há algo de particular e de “mais próximo” nas eleições municipais que subvertem algumas lógicas mais generalizantes. Provavelmente por isso, na minha cidade, justamente o PT (com outros partidos da coligação Frente Popular) tenha saído vitorioso no pleito.
Também já foram feitas (e ainda serão feitas) várias análises sobre o cenário local e as razões para essa vitória (e outros elementos da eleição). Não é exatamente esse o meu objetivo aqui. Quero apenas ponderar que, tendo acompanhado as gestões anteriores do PT na cidade (uma delas como integrante do governo), há sim uma substantiva diferença ideológica com repercussões práticas na vida da população (nesse caso a mais empobrecida e privada de direitos). Tenho orgulho de ter acompanhado e participado de várias coisas que foram feitas nessas gestões e também muita consciência dos equívocos e dos processos interrompidos (sobre os quais eu acredito que ainda seja necessário para o próprio Partido refletir com mais profundidade). E talvez quem votou no PT nessa eleição nem tenha tanta clareza sobre essas questões, pois, embora algumas pessoas prefiram dizer que “o povo é burro”, acredito, pelo contrário, que “o povo” sabe muito mais das coisas, pois as experimenta de outra maneira e nem sempre as articula como especialistas e analistas gostariam.
Além disso, pensar sobre a importância da participação nos processos políticos. Não! Os nossos sonhos, as nossas lutas, a nossa fome não cabem nas urnas dessa democracia manipulada pelos mesmos interesses de sempre para seu próprio proveito – do lucro e do capital, do pai e do patrão. Ainda assim, acredito que o processo eleitoral que vivenciamos pode nos ajudar a pensar justamente os processos (e sua insuficiência e ineficiência) de participação popular (aqueles que realmente tornam as pessoas protagonistas e agentes efetivas). Não pretendo que as minhas escolhas ou opções estejam à cima de qualquer crítica e espero ter a oportunidade de continuar intervindo para que tenham efeitos que melhorem a vida das pessoas. Mas como educador e pesquisador, como pessoa de fé e, claro, como cidadão, entendo que é minha tarefa ética participar e incentivar a participação para que mais pessoas, com mais pontos de vista, assumam o compromisso e a responsabilidade de ajudar a construir os processos, cada vez mais inclusivos, cada vez mais justos, cada vez mais como a gente entende que devam ser – seja lá a forma e o jeito que esse “como” venha a ter.

Esse pode até parecer mais um desabafo pessoal do que qualquer coisa que valha a pena ler (e provavelmente é). Mas em tempos de governos golpistas, escolas sem partido, campanhas contra acordos de paz e outros processos sustentados pelo pânico criado em torno do que chamam “ideologia de gênero”, entendo que qualquer possibilidade de pensar meu lugar no mundo e minhas relações é também uma forma de resistir a todas as forças que nos sufocam e matam todos os dias. Eu posso sempre mudar de ideia e desistir de um caminho que não dá conta dos meus anseios e desejos para mim e para todas as pessoas. Só não gosto da ideia de deixar outras pessoas terem ideias por mim e ficar sentado à margem do caminho esperando para ver onde ele vai dar. Como canta Adriana Calcanhoto: “Ah, eu quero chegar antes”.

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