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Bacharel, Mestre e Doutor em Teologia pela Escola Superior de Teologia (EST). Área de Concentração: Teologia Sistemática. Pesquisador nas áreas de: Estudos Feministas, Teorias de Gênero, Teoria Queer, Masculinidade, Homossexualidade e Diversidade Sexual, na sua relação com Religião e Teologia.

Resposta a Fernando Cândido no dia do Orgulho LGBT


Usando a antiga e tradicional metodologia epistolar que, mesmo em termos de interconexão eletrônica, pode ser um instrumento de diálogo e produção de conhecimento, gostaria de responder a um texto publicado no Facebook pelo colega e amigo Fernando Cândido. Embora o texto não tenha sido escrito para mim ou privadamente para uma pessoa, uma vez que público, respondo assim, de maneira particular, mas ao mesmo tempo pública e aberta com o único objetivo de seguir construindo relações mais justas. Afinal, e nisso concordamos, pois eis que também partilho do ambiente acadêmico, o debate teórico é sempre fundamental para alargar nossa visão e aprofundar nossa prática.

Mas comecemos pela prática – que é já uma opção teórica. Não é novidade que a afirmação do “orgulho” fundamentado na definição de identidades estáticas tem sido questionada há algum tempo. Todos/as nós do campo dos estudos queer, pós-coloniais, ou qualquer outro nome que usemos para classificar nosso campo de reflexão – reconhecendo que todas essas classificações são sempre reduções daquilo que realmente estamos sendo e fazendo, portanto, idealizações ou fetiches, como bem colocas - já discutimos, refletimos e escrevemos sobre as limitações do discurso identitário e assimilacionista. Os processos históricos vividos nos lembram constantemente dos riscos.

Mesmo assim, permanecendo no campo dos processos históricos, sabemos também que a afirmação do “orgulho” não é algo que foi construído em escritórios ou bibliotecas, mas no enfrentamento político dos mesmos sistemas que denuncias e que também teve respaldo teórico por parte de quem fazia a reflexão teórica junto com essa militância. Iniciar uma reflexão sobre o “orgulho” sem considerar esses processos e os resultados que obtiveram em termos práticos me parece ceder aos encantos colonialistas que apagam as tradições revolucionárias para impor uma nova metanarrativa – nesse caso a do não-direito de afirmar o orgulho de ser o que se é – por um instante ou por quanto tempo for necessário, desejável e bom.

Nesse sentido, seria necessário reconhecer que a afirmação do “orgulho” não é e nunca foi a única estratégia emergida no contexto do enfrentamento político frente aos sistemas colonizadores – das terras e dos corpos, territórios. A fluidez que vem da prática política e da reflexão teórica, nesse caso, deveria afirmar diferentes estratégias para diferentes contextos, sem tentar produzir um único discurso universalizante que pretensamente daria conta de resolver todos os problemas de todas as pessoas e instaurar uma realidade de justiça e paz – seja ele o da afirmação do orgulho ou do direito à opacidade. Mas estes e outros, simultanea e ambiguamente, poderiam ser acionados tendo em vista os resultados que pretendem alcançar em cada contexto.

Do ponto de vista da prática – que de modo algum é transparente e sem contradições – acredito que a afirmação do orgulho ainda seja uma estratégia importante, visto sua capacidade de mobilização e promoção de mudanças efetivas na vida das pessoas (e mais sobre isso pode ser lido no meu próprio texto escrito para esse dia). Como homem, branco, com formação e uma condição social que me permite acesso a algumas regalias (mais alguns fetiches dos quais nem me orgulho tanto), poderia também me dar ao luxo de ficar refletindo sobre o fato de que eu sou apenas mais um ser humano, que quem eu amo ou beijo não deveria fazer nenhuma diferença e que quero o meu direito à opacidade, aos meus mistérios e segredos. Mas fingir que esses fetiches não determinam um sem-número de situações nas quais me vejo envolvido todos os dias seria iludir-me e pensar que minha individualidade e subjetividade não têm nenhuma implicação política na realidade da qual faço parte.

Além disso, se por um lado a busca pela verdade e pela transparência foi usada como estratégia de colonização, o segredo e a ocultação não são menos perniciosos e opressores (para usar um termo da sua reflexão) do que a denúncia e a visibilidade. Afinal, tanto uma como a outra podem ser usadas para forjar relações desiguais de poder (para usar um outro conceito). E então, outra vez, recorreríamos à história para entender a relação entre “orgulho” (que definitivamente não se trata de um sentimento no sentido romântico) e a “visibilidade”. O ocultamento tem sido uma das estratégias colonizadoras mais eficientes, e “dizer a sua palavra”, “desvelar o seu mundo” são fundamentais para a produção do conhecimento e do enfrentamento político coletivos – quando e como a gente quiser e/ou puder.

Surpreende, justamente, que você afirme ser necessário inverter a lógica do opressor. Segundo a sua lógica não seríamos todos e todas opressores/as e oprimidos/as? O que efetivamente diferenciaria uns/as dos outros/as? E não é justamente a “afirmação do orgulho” uma forma de inverter essa lógica que diz que deveríamos, de alguma forma, ter vergonha? Ainda outro dia me perguntavas sobre as manifestações e protestos se “alguém vai tomar a direção da coisa”. Não precisaríamos de múltiplas direções? Pois a fluidez de nossos desejos e da própria realidade não nos permitem mais uma estratégia e discuro únicos? E ainda no final de sua reflexão falas da “não-barbárie”. Não é este um conceito altamente colonialista?

Meu amigo, o povo que está na luta (na prática e na teoria), com todas as suas contradições e ambiguidades, está sendo o que quer, quando quer e quando pode. Com seus orgulhos e opacidades, quer o direito de estar sendo. Por isso, não se trata de uma oposição fantasiosa entre orgulho/visibilidade e opacidade, mas ambas são ferramentas para que não apenas seja garantida a diversidade – pois ela não é uma idéia, mas um fato – mas a justiça. O respeito à diversidade – como manifestação da justiça – só estará garantido mediante o direito à própria diversidade, para que todos e todas efetivamente possam ser o que quiserem e quando quiserem – visíveis em sua máxima exuberância ou opacos/as em suas múltiplas formas de não tentar reduzir ninguém a uma única compreensão. (Aliás, repare que na citação que usas a referência à opacidade se dá em relação ao/à outro/a e não em relação a si mesmo/a)

Eu, por mim, entre outras coisas, pelo menos por hoje, fico com a teoria de Cris de Madri pronunciada na Assembleia Legislativa de Alagoas na Sessão Pública pelo Dia Internacional do Orgulho LGBT: “Sou travesti e exigo respeitio”. Amanhã ela pode ser o que quiser, inclusive a mesma coisa.