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Bacharel, Mestre e Doutor em Teologia pela Escola Superior de Teologia (EST). Área de Concentração: Teologia Sistemática. Pesquisador nas áreas de: Estudos Feministas, Teorias de Gênero, Teoria Queer, Masculinidade, Homossexualidade e Diversidade Sexual, na sua relação com Religião e Teologia.

Vocês me matam; e eu ressuscito! – 17 de maio: Dia Mundial de Luta contra a Homofobia


Vocês me matam - e eu ressuscito!
Todos os dias, vocês me matam!
Quando assassinam travestis nas ruas,
Quando assassinam pessoas por sua orientação sexual e identidade de gênero...
... me matam:
Quando me alienam da minha família
E dizem que a família que eu construo não tem o direito de existir,
Meus laços afetivos, meus parentescos forjados na luta pela sobrevivência.
Vocês me matam!
Quando me excluem da escola, da igreja, do trabalho...
Com suas práticas discriminatórias, violentas,
E seus silêncios cúmplices e covardes!
... vocês me matam,
Quando ignoram minhas múltiplas formas de ser e saber,
Me rotulam de parcial e subjetivo,
Me transformam em apêndice, anexo, exótico, qualquer coisa,
Ignoram propositalmente a sua própria parcialidade e subjetividade alienadora
Me riscam dos seus manuais e me matam!
Me matam...
Com seus discursos pseudoamorosos
Usando artifícios mil para negar meu corpo e meu sexo.
Me matam ainda quando dizem que me amam ou me toleram
Diminuindo a minha existência a um ato de piedade ou condescendência
Pressupondo uma igualdade negada nos seus discursos e práticas.
Você me matam e torturam!
Com suas cruzes, instituições e artimanhas burocráticas,
Em nome de deus, da pátria, da família e da propriedade
Um pouquinho cada dia,
Fingindo não perceber,
Preservando suas posições de poder e suas prerrogativas de decisão,
Exigindo paciência.
Ah, vocês me matam!
Alimentando as facas, as balas e as línguas
Que rasgam, perfuram e dilaceram o meu corpo...
... vocês me matam!
E às vezes eu nem me dou conta,
Fingindo gostar de experimentar os avanços e a igualdade que vocês fingem existir
Pois até mesmo nesses momentos, vocês me matam!
E como a cigarra cantada de Mercedes
Estou aqui: ressuscitando!
Talvez não eu mesmo,
Que de tanto morrer, já não sou eu que ressuscito.
Mas como sobrevivência de meus ancestrais
E anúncio das gerações futuras: ressuscitamos!
Cantando ao sol
Depois de tantas vezes que nos mataram
Depois de tantas vezes que nos apagaram
Depois de tantas noites desesperando.
Hoje não quero discutir os processos e entender os torturadores e assassinos
Hoje não quero entabular falsos diálogos que partem da premissa de minha ininteligibilidade
Só por hoje, como naquele momento máximo de desespero,
Não quero desculpar e justificar a mão e a faca que me perfura 13, 28, 41 vezes
Hoje eu quero dizer: Vocês me matam!
Homofobia! Homofobia! Homofobia!
E de alguma forma misteriosa, surpreendente, e que vocês não dominam,
Eu ressuscito!
Nós ressuscitamos!
Ainda que seja para continuar morrendo
Até que os nossos corpos se materializem como direito e justiça!