Do alto

O diabo levou Jesus ao alto da montanha para mostrar-lhe tudo o que podia ser seu caso aceitasse estar sob o seu domínio. Tentação. Estar no alto, no topo, então, é sinal de dominação, de poder. Subindo e descendo a Serra Gaúcha nesse final de semana pensei em tanta coisa, e nada que tenha a ver com esse tipo de poder. É certo que existe um tal glamour e é preciso certo poder aquisitivo para desfrutar das magias do mundo encantado. Turistas barulhentos e chatos e comerciantes ávidos e invasivos também.
Mas existe algo que me descansa, que me enche os olhos e que me envolve a ponto de eu ter vontade de me perder e ser parte da paisagem, do vento, do movimento e do som (menos dos turistas barulhentos). A sensação de dirigir com os vidros abertos, cantando qualquer música olhando o que os montes (na subida ou na descida) tem me faz bem, apesar de tudo o que circula pela minha cabeça, pensamentos tumultuados e até conflitantes e incoerentes de querer e não querer.
Os vales desenhados, a luz que reflete e cria sombras, as árvores com ou sem copas verdes e vivas e mesmo a ausência de flores. A paisagem obedece ciclos e o inverno tem o seu próprio jeito de acalmar e revelar. As cidades lá embaixo, no meio, escondidas, os lugares onde as pessoas vivem e transitam. Não é de grandeza a sensação, mas de pequeneza. De querer fazer parte e de querer que tudo seja extensão de tudo. O alto como possibilidade de ver, pensar, sentir, envolver-se.
Talvez por isso se coma tanto. (Mentira, na maioria das vezes é gula mesmo). Mas dá vontade de comer aquilo tudo, com os olhos, com a boca, com um abraço erótico. Cliques e flashes e posts pra tentar capturar aquilo que não se deixa.
Vejo e tudo e não me canso. Descanso. E me preparo para o que há de vir. Sem perder a memória daquilo que vejo quando estou no topo: a beleza, a continuidade, a mudança , o conjunto, a possibilidade – apesar do barulho irritante e desprezível de quem não vê e não entende, lá ou aqui. Tenho fome. Quero comer.

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