Quem sou eu

Minha foto
Bacharel, Mestre e Doutor em Teologia pela Escola Superior de Teologia (EST). Área de Concentração: Teologia Sistemática. Pesquisador nas áreas de: Estudos Feministas, Teorias de Gênero, Teoria Queer, Masculinidade, Homossexualidade e Diversidade Sexual, na sua relação com Religião e Teologia.

Sobre orgulho e topetes!

Há algumas semanas, sem ter premeditado ou mesmo refletido muito sobre isso, decidi não mais ostentar o reconhecido topete esculpido por longos 16 anos (mais ou menos) todas as manhãs com a ajuda de produtos das mais diversas origens e consistências. Tornou-se, aparentemente, uma marca capaz de me identificar em muitos espaços. Marcas que são construídas no corpo (como tantas outras que tenho e que todo mundo tem), reflexo da história pessoal de cada um/a e da sua interação com o mundo. Afinal, estilo não é isso? Independente do significado que essas marcas tem para quem as carrega, os significados que elas assumem são tão diversos quanto as teorias hermenêuticas permitem.

No caso do meu topete – ou a sua ausência – a mudança aparentemente foi notada por todas as pessoas que convivem comigo, ainda que nem todas sentissem a necessidade de comentar (em alguns casos, inclusive, para minha frustração). Entre os comentários, os mais diversos possíveis, tão diversos quanto o significado que cada um/a atribuía a ele, ou simplesmente as reações diante de uma apresentação estética fora do hábito da convivência cotidiana, ou mesmo esporádica.
Hoje, 28 de junho de 2012, acordamos para celebrar o dia do orgulho LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). Experiências e um campo de reflexão profundamente disputados tanto interna quanto externamente. Difícil é definir a pertinência ou mesmo a capacidade transformadora desses debates e disputas, particularmente num contexto onde a pergunta central é a mudança das relações de poder e onde as questões LGBT (especialmente quando vistas de maneira isolada) podem não passar de um remanejo estético para a manutenção dos tradicionais mecanismos de poder, desumanizadores que sejam.

Disputa-se, inclusive, a própria afirmação do “orgulho”. Topete ou não topete – eis a questão! No âmbito da teologia com T maiúsculo, “orgulho” é um pecado, uma forma de revolta contra d*s, particularmente quando afirmado por quem se encontra em condições desiguais na configuração concreta das relações de poder (a lista é grande). Na esfera pública (e não será essa a esfera, afinal, da própria teologia?), no entanto, admite-se e até exige-se o sentimento e a ostentação desse “orgulho” (sempre com possibilidade de uma falsa moderação). É um orgulho ter filhos bem educados, conseguir cumprir uma tarefa de maneira exemplar, realizar grandes-pequenos feitos.  Devemos ter, afinal, orgulho. Hã?!

“Orgulho gay” – dizem – pode ser até um contra-senso. O que haveria de especial ou tão extraordinário nas relações erótico-afetivas-sexuais que as tornassem objeto de algo ou tão contrário aos mandamentos ou tão reservados para a ordem e a decência. E, assim, o “orgulho”, assim como os topetes, se tornam marcas que carregamos nos corpos e nos identificam publicamente, sujeitando-se a múltiplas interpretações e reações.
Eu sei que, no meu caso particular, o que está em jogo com relação ao meu topete é muito menos do que o que está em jogo com a luta pela sobrevivência e pela cidadania expressa na manifestação do “orgulho” LGBT. Mas sei, também, que a noção de “orgulho”, construída num contexto específico da história do Movimento Homossexual, não revela por si só a luta e o projeto político que essa palavra sozinha pode expressar. Palavras e topetes podem nos trair constantemente.
Houve uma fase de minha vida em que eu tinha cabelo comprido – louro, liso, longo... Houve uma fase na minha vida em que meu cabelo estava tingido de “borgonha” (e todo mundo jurava que era lilás - whatever). O meu cabelo – o meu corpo – sofrem e gozam a opção por uma outra sociedade, por outras relações. Nem sempre de maneira inteligível ou auto-evidente. Em geral, precisam de palavras que podem ser tão confusas para um mero observador quanto. Meus sonhos e meus desejos mais profundos estão neles e é preciso mais que o olhar para sabê-los. Pois, nesse caso, como diria Freud, um topete é só um topete. Mas o “orgulho” - não confundam - continua sendo a expressão pela liberdade de construir algo que não é, com ou apesar do topete.

A gente tem topete pra que?