Quem sou eu

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Bacharel, Mestre e Doutor em Teologia pela Escola Superior de Teologia (EST). Área de Concentração: Teologia Sistemática. Pesquisador nas áreas de: Estudos Feministas, Teorias de Gênero, Teoria Queer, Masculinidade, Homossexualidade e Diversidade Sexual, na sua relação com Religião e Teologia.

Alma lavada – com beijo e purpurina

Um grupo de aproximadamente 100 pessoas se dirige, decidido, a um bar que tem discriminado homossexuais. Uma parte entra. Quem não consegue entrar fica observando do lado de fora, dando apoio. Ao sinal, quem está dentro começa a se beijar. É rápido e o saldo são aplausos e vibração geral. Aquelas que já estão nisso há algum tempo, lágrimas nos olhos. As mais jovens, aprendendo a exigir nada menos que respeito. Foi assim que terminou o Dia Mundial do Orgulho LGBT em São Leopoldo – com um beijaço em plena Rodoviária. Havia tensão. Que tipo de reação poderia provocar? Como seria encarada essa manifestação e protesto? Ainda tive que explicar para um desavisado que beijos não poderiam ser considerados provocação ou delito – invocando a Constituição Federal por formalidade que seja. Manifestação pacífica da sociedade civil organizada lutando pela garantia de seus direitos: alguém já ouviu falar?
Lembrei dos velhos tempos e de quanto nos dedicamos a essa luta. Lembrei de tantas outras conquistas, mas lembrei principalmente de que a nossa sobrevivência ainda precisa ser conquistada todos os dias. A homofobia existe e os índices de violência e assassinato de pessoas LGBT estão aí para comprovar. Lembrei de tantos e tantas que em muitos lugares e em muitos tempos construíram esse caminho. E também lembrei de tantos e tantas que não entendem e não conseguem entrar nesse caminho.
Lembrei o porquê de tantas escolhas e o quanto elas ainda são necessárias. Lembrei, principalmente, que a luta não termina: enquanto houver uma pessoa com seus direitos violados, enquanto o dinheiro continuar gerando privilégios e exclusões, enquanto não conseguirmos conviver com a diversidade que somos e que nos rodeia... ninguém será livre!
Não há religião, conhecimento ou estrutura de poder que pode dar conta dessa transformação profunda de que precisamos. Elas só podem servir ao povo organizado que constrói a sua vida e a sua dignidade na luta e no beijo. E não o tem feito. É preciso beijar muito. Beijar por um outro mundo e por outras relações.
“Encontraram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram” (Salmo 85.10)