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Bacharel, Mestre e Doutor em Teologia pela Escola Superior de Teologia (EST). Área de Concentração: Teologia Sistemática. Pesquisador nas áreas de: Estudos Feministas, Teorias de Gênero, Teoria Queer, Masculinidade, Homossexualidade e Diversidade Sexual, na sua relação com Religião e Teologia.

Quem tem medo do lobo mau?


O caso do “kit anti-homofobia” no mundo do faz de conta

Outra vez de novo. Quem mandou a chapeuzinho se aventurar na floresta. Aquele lugar úmido e escuro que esconde fantasmas e criaturas estranhas de todos os tipos. Vermelha é a sua capa. De sexo, de sangue e de luta. Sexo que não pode ser dito – que é mal-dito por não respeitar as convenções estabelecidas para o controle e a submissão, contrário à liberdade dos corpos desejosos e desejantes de vida em sua plenitude. Sangue de centenas de assassinatos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT) noticiados anualmente e centenas de outros experimentados cotidianamente, pedacinho por pedacinho - assassinatos de dignidade e de direitos, humanos que sejam. Luta diária e cotidiana pela sobrevivência que se faz revolução, gestada no conflito social e na luta de classes, onde quem tem o capital tem tudo.

No cesto, o alimento possível para relações mais justas em forma de kit (com nome e sobrenome). Produzido num longo processo de produção da massa trabalhadora LGBT (com todas as suas contradições), ele se transforma em fetiche, seu valor é inflado e ele já não é mais o que era no mercado comodificado das fantasias (e fantasmas) burguesas cientificamente erigidas. Rende nas capas de revistas, nas primeiras páginas dos jornais, nos sites de internet e até no Jornal Nacional. Se viesse travestido de coelhinha playboy – o kit – talvez passasse despercebido e seria degustado elegantemente. Com sua simplicidade desnorteadora o cesto/kit tem o poder de despertar a honradez do caçador-modelo-família com sua espingarda justiceira e a voracidade do lobo-mau-fantasma com sua fome insaciável. Ele come a vovozinha, a chapeuzinho – e, se tiver coelhinha, ele come também. Ai que medo.

Personagens e intérpretes se alternam nesse perverso conto de fadas. E fadas magrinhas existem! Não duvide delas, que você vira abóbora depois da meia noite ou pode o cavalo do príncipe loiro ser acometido por uma repentina paralisação que deixará a princesa em seu sono eterno eternamente. Mas, de verdade, ninguém está prestando atenção nas personagens. O olhar fixo (voyeurístico) está no kit, objeto de desejo e medo. Propaganda! gritam os caçadores. Vai atrair (e produzir) mais lobinhos-maus. Mal feito! gritam as vovozinhas tomadas por um surpreendente senso de requinte (e crueldade?). Eu só estava levando um lanchinho inocente! gritam as chapeuzinhos vermelhos perplexas em sua pseudo-ingenuidade. O lobo-mau esperando para atacar. E os gritos ecoam pela floresta sendo repetidos inescrupulosamente por todo tipo de espécies tomadas pelo assunto que virou moda. Não se sabe mais se quem disse que disse o que disse foi o lobo-mau, o caçador, a vovozinha, a chapeuzinho, o grilo, a cobra, o papagaio, o coelhinho da páscoa ou o papai Noel.

O cesto é interditado. O caminho interrompido.

O recente debate em torno do material produzido por um conjunto de organizações e institutos governamentais e não-governamentais como ação resultante do Programa Brasil sem Homofobia, e mais especificamente, do Programa Escola sem Homofobia envolveu um conjunto de atores, se espalhou pela sociedade brasileira e despertou uma série de fantasmas (fobias, por que não dizer?) que estavam espiando pelas frestas dos armários entreabertos pelas lutas dos movimentos sociais nas últimas décadas. O complexo jogo de disputas e poderes que levou a sua produção, por um lado, e a seu engavetamento/armarização, por outro, explicita alguns dos conflitos que a nossa jovem democracia vestida de vermelho enfrenta nos dias atuais. Reconhecendo esse jogo já tão explicitado como quer que seja, quero refletir sobre dois pontos que particularmente me incomodam por, por óbvios que sejam, esvanecerem sutilmente o debate, fortalecendo o caráter perverso da narrativa.

Primeiro, a espingarda. Sim, a religião, a igreja, em sua discursividade absoluta e seu capital acumulado à custa da inflação da família burguesa e dos juros da heteronormatividade compulsória, batizados de cristãos e progressistas, se tornou um problema para os seres humanos, para a tal democracia e para D*s. O que não é dito, é mal-dito e inter-dito, é que a santa madre também é um fetiche. Um fetiche eficiente, é verdade, com milhões de assinaturas e tantos outros de reais. Um ídolo que precisa ser desmascarado. Há outras vozes e discursos, há outras relações dos corpos e seus meios de produção e reprodução com o religioso. Há outras religiões, vividas e sonhadas, conquistadas e por conquistar. D*s indecente não se deixa aprisionar, soprando seu Espírito/Sofia que causa arrepios por brechas e fendas de resistência, abraçando e protegendo os/as mais vulnerabilizados pela avalanche de ódios com suas asas de Jesus/Galinha – não o cordeiro.

O discurso religioso que ser quer unívoco não tem nada de religioso nem de evangélico. Com seu fetiche inebria milhões e com seu capital compra essa suposta univocidade. Há igrejas e grupos religiosos que não compartilham desse samba de uma nota só, como os grupos e igrejas denominadas “inclusivas” e como a Igreja Anglicana que reconheceu a decisão do STF sobre as uniões homoafetivos. Há lideranças religiosas que apóiam e defendem a criminalização da homofobia, como as que assinaram o MANIFESTO DE LIDERANÇAS CRISTÃS A FAVOR DO PLC122 e discutem relações de gênero, orientação sexual e identidade de gênero com seus grupos de jovens, nas suas pregações e no acompanhamento espiritual de seus/suas fiéis. Há teologias da libertação, feministas, gays, lésbicas, queer, negras, indígenas, camponesas, populares, que desconstroem, reconstroem e constroem outros saberes e alimentam outros mundos possíveis. Há religiões para as quais esse debate talvez nem faça sentido, pois integram a diversidade sexual e enfrentam o preconceito, a discriminação e a violência usando outros referenciais menos fóbicos. Há o povo de D*s que tem os seus próprios meios de sobreviver ao deserto e às tentações da religião feita ídolo/fetiche, criando seus kits não-legitimados contra as fobias devastadoras de seus corpos, de seus filhos e suas filhas, do mundo habitado que geme e chora. E sim, o Estado é - ou deveria ser - laico!

Erguei as vozes e movei as suas bundas teólogos, teólogas, sacerdotes e líderes religiosos comprometidos/as com D*s conosco! Organizai o povo cativo para a luta difícil da fé libertadora. Na capela, no templo, no terreiro, nas ruas, praças, câmaras, assembléias e no Congresso Nacional. As espingardas são reais e estão apontadas, para o lobo, para a vovozinha, para a chapeuzinho, para o kit. O holocausto no altar do deus da morte. Elas são reais e matam de verdade. Quem quer apertar o gatilho ou atirar a primeira pedra? Por favor, um/a de cada vez.

Agora o segundo, o lobo-mau. Não, ele não existe fora da historinha mal-dita para assustar as criancinhas e doutriná-las no mundo do como a gente quer que seja. Ele só faz sentido nesse mundo e é lá/aqui que gera/personifica o medo, a fobia. Nessa narrativa/realidade perversa, são lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas gay friendly que vestem a sua pele, tentando se passar por cordeiros, passíveis de serem abatidos, pregados em cruzes e imolados pelo amor de deus. Loucos, desarvorados pela floresta, seus dentes afiados e sua saliva sanguinária é aguçada pela promessa do cesto/kit e pela inocência da menina indefesa que passeia pelos corredores quase seguros da bucólica escola da vida vigiados pela astúcia de pedagogos-caçadores empunhando suas cartilhas da moral e dos bons costumes. Assustem-se! Fujam! Matem-nos! Eles são seres abomináveis, malignos, infernais. É de nós que estão falando, mesmo quando amam o pecador, mas odeiam (!) o pecado.

Pergunto-vos: O que há de tão fascinante, tão atraente, tão irresistível que a simples possibilidade de existência de sexualidades não heteronormativas abocanharia todo mundo, colocando em risco a continuidade da espécie humana na terra? Então a heterossexualidade é uma questão de opção? Ou mesmo de ignorância? Não saber equivale a não querer e saber equivale a não poder resistir? O pastor declara que homossexuais são amados/as por D*s, criados/as a sua imagem e semelhança e todos/as os/as fiéis invadem as ruas (de uma vez ou pouco a pouco) para satisfazer seus desejos homoeróticos e consumir-se em paixões infames? A insanidade da fantasia e do fetiche inflacionam a moeda heteronormativa e os investidores ávidos movimentam a bolsa frenética da decência, comprando suas ações/indulgências no mercado do paraíso futuro. Jesus voltará, em breve, apressem-se.

E nossas pobres criancinhas, sendo comidas pelos lobos comunistas e viados insurgentes nos bancos escolares enquanto são hipnotizadas por imagens projetadas pela tecnologia nossa de cada dia. Não poderão resistir aos apelos tentadores do lobo-mau travestido de cordeiro. Elas próprias se tornarão lobos-maus, catequizadas por essa nova cartilha, preparada acidentalmente na cozinha de alguma dona-de-casa descuidada que não perguntou ao marido se o preparo era palatável.

Pergunto-vos, novamente: A escola, com todos os seus mecanismos e estruturas faz propaganda e ensina constantemente todas as nossas crianças a construírem a sua sexualidade dentro dos limites da heternormatividade – ou não? Os livros didáticos, os materiais pedagógicos, as brincadeiras, os exemplos, as disciplinas fazem apologia e promovem a estrutura social/sexual que se quer única e assimilável para todos/as – ou não? E aqueles e aquelas de nós que crescemos nos sentindo desajustados/as, culpados/as, fomos humilhados/as, ridicularizados/as, xingados/as, apanhamos física, psicológica e simbolicamente, pedimos a D*s que não permitisse, e mesmo assim construímos nossas identidades lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais? Como é que não aprendemos a lição? E porque não aprendemos continuaremos tendo que sobreviver ou nos suicidar sem o direito de existir e pertencer a essa comunidade? E aqueles e aquelas que crescerem e construírem uma identidade heterossexual, como nos respeitarão para que tenhamos os nossos direitos fundamentais garantidos e não sejamos assassinados, se para eles e elas sequer existimos ou temos esses direitos? Como aprenderão sobre o “respeito à diversidade” se são ensinados/as a serem cópias fiéis de um molde padronizado tornando a “diversidade” apenas uma idéia longínqua, abstrata, metafísica, sem sentido material e reconhecível?

Não. Pais, mães, professores e professoras, pastores e padres, policiais e líderes políticos não querem que seus filhos e suas filhas se tornem LGBT. Silenciam, pois o que não é dito não existe e não se torna uma possibilidade (por irresistível que seja). Querem que seus filhos e suas filhas sejam retrato daquilo que foram ensinados que deviam ser. O kit está interditado, suspenso. O lobo-mau assassinado, diariamente em diferentes corpos. E o resto da história a gente conhece bem - e celebra? E em nome de deus dormem tranqüilos/as, como cidadãos e cidadãs que defendem a tradição, a família e a propriedade e venceram mais uma batalha travada no corpo dos outros.

O caso do “kit anti-homofobia” repete e reafirma um mundo do faz de conta que ensina com a pretensão de não querer ensinar – é só uma historinha inocente. Um mundo no qual se olha, mas não se enxerga, no qual se ouve, mas não se escuta. E verdades inverídicas são repetidas à exaustão até assumirem uma aura sagrada, eterna, imutável. Com ou sem kit nós resistimos, desobedecemos e somos indecentes com nossas bandeiras estendidas em nome da paz, da justiça e da liberdade, bandeiras de arco-íris.

André S. Musskopf