Chuva e purpurina


No último domingo ocorreu a 5ª Parada Gay de São Leopoldo. Diferente das edições anteriores, nessa, havia uma convidada nem tão especial: a chuva. Tratando-se de um evento em espaço aberto, não teria sido nada estranho cancelar o evento e, talvez, isso tivesse sido feito se não houvesse um número impressionante de pessoas que não se intimidou com a chuva e acompanhou toda a programação prevista. Ganharam os vendedores de última hora que apareceram com guarda-chuvas e capas de chuva, mas nem tanto, já que a maioria nem fez questão, construiu a festa na chuva mesmo, molhados/as de entusiasmo e vontade. A imprensa noticiou o evento, falou da programação, destacou o brilho e a quantidade de pessoas – apesar da chuva. No entanto, foi uma festa diferente, justamente por causa da chuva, e enquanto muitos/as de nós nos perguntávamos por que as pessoas continuavam ali, tudo ia acontecendo (quase) conforme o previsto. Ver a Rua Independência tomada de pessoas que se divertiam e se manifestavam pelo respeito e valorização da diversidade sexual em nossa cidade enquanto chovia torrencialmente foi algo que não precisou de explicação, falava por si mesmo e emocionava aqueles/as capazes de imaginar uma sociedade que conviva com as diferenças.
Há pessoas que dizem que a Parada Gay transformou-se numa “mera” festa, perdendo o caráter político de outrora. Mas, o que há de mais político do que a reivindicação de direitos através da expressão de corpos que se mostram, revelando suas histórias de vida, em praça pública e sob a chuva? Há pessoas que dizem que para a transformação social é preciso que se trabalhe no campo da educação, e que a Parada Gay e o movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) não fazem isso. Mas, o que há de mais educativo do que a convivência pacífica entre pessoas de distintas orientações sexuais e identidades de gênero, gerações, origens étnicas e raciais, credos, afiliações político-partidárias, habilidades, e tantas outras marcas que nos tornam únicos/as? Há pessoas que consideram a Parada Gay uma exposição gratuita de algo íntimo como a sexualidade. Mas o que há de mais fundamental e político do que as relações que criamos e recriamos no dia-a-dia e a denúncia da violência, do preconceito e da discriminação das quais se é vítima todos os dias?
A Parada Gay é uma celebração da diversidade em todas as suas formas. Caminhamos por causa dos princípios democráticos que fundamentam a construção de sociedades justas e igualitárias. Denunciamos a violência e rimos da estupidez dos padrões criados para circunscrever a experiência viva das pessoas. A purpurina que decora nossas roupas, pinta nossos corpos e enche o ar de alegria anuncia dias mais coloridos, como a chuva que lava e purifica.
Desde já, sintam-se convidados/as para a Parada Gay de 2010.
E se chover, traga guarda-chuva!

André S. Musskopf
Padrinho da Parada Gay 2009

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