Quem sou eu

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Bacharel, Mestre e Doutor em Teologia pela Escola Superior de Teologia (EST). Área de Concentração: Teologia Sistemática. Pesquisador nas áreas de: Estudos Feministas, Teorias de Gênero, Teoria Queer, Masculinidade, Homossexualidade e Diversidade Sexual, na sua relação com Religião e Teologia.

Quando tudo dá errado

Então, conto a seguir, todos os passos de minha desastrosa volta ao Brasil depois de ir aos Estados Unidos para participar de um Seminário na Emory University.
Em primeiro lugar, é preciso entender que a Universidade financiou a minha participação no Seminário, comprando através de sua agência de viagens a minha passagem com a Delta Airlines saindo de Porto Alegre, com escala no Rio de Janeiro, até Atlanta, retornando da mesma forma (Atlanta - Rio de Janeiro - Porto Alegre). No final de semana após o término do Seminário, eu fui visitar amigos/as em Newark/NJ, passagem que eu mesmo comprei com a Continental Airlines. E é justamente aí que as coisas começaram a dar errado.
No dia 22, segunda-feira, eu embarquei em Newark com a Continental para chegar em Atlanta às 4:30 e pegar o vôo da Delta para o Rio às 9:35. Quando o avião chegou em Atlanta ele não pode pousar imediatamente por causa de problemas com tráfego aéreo e ficou sobrevoando o aeroporto. Devido a uma tempestade de verão (que não deve ter durado mais do que 15 minutos), o aeroporto foi então fechado (por aproximadamente 15 minutos). Como o avião em que eu estava não tinha combustível para ficar sobrevoando o aeroporto por mais tempo, fomos direcionados para outro aeroporto (em Charlotte), com o objetivo de abastecer a aeronave e regressar imediatamente a Atlanta. Depois de pousar em Charlotte, ficamos dentro do avião, na pista, esperando o caminhão com o combustível vir até nós para abastecer. O comandante avisou que o aeroporto em Atlanta já estava liberado e assim que a aeronave estivesse com combustível decolaríamos. O caminhão finalmente chegou, abasteceu e foi embora. O comandante, no entanto, avisou que o referido caminhão não tinha trazido combustível suficiente e que tinha ido buscar mais. Ele retornou e completou o abastecimento. Em seguida, o comandante disse que agora precisávamos esperar a liberação de Atlanta. Mais meia hora. O próximo aviso foi que tínhamos a liberação e que decolaríamos. Foi feito então o procedimento normal de decolagem: poltronas na posição vertical, mesinhas fixas, cinto colocado, demonstração das comissárias (saídas de emergência, máscaras de oxigênio, coletes salva-vidas). O avião já estava andando quando parou, desligou as turbinas e o comandante avisou que não tínhamos mais liberação para sair. Mais notícias em meia hora. Ainda não. Mais meia hora. Nada. Somando, ficamos no pátio, dentro do avião, quase três horas. Finalmente decolamos. Perguntei às comissárias o que fazer e a única esperança era que o vôo para o Brasil também estivesse atrasado. Caso contrário, entrar em contato com a equipe de solo assim que chegássemos. Chegamos 9:20, mais ou menos. Como eu estava na sentado bem na frente corri para o balcão na saída do portão. Ela me disse que o vôo já tinha saído e que eu devia me dirigir a um outro balcão onde todos/as os/as passageiros/as que não ficariam em Atlanta seriam encaminhados.
A questão é que eu estava voando até então com a Continental e o meu próximo vôo era com a Delta, sendo que não havia uma ligação entre as duas passagens. Ou seja, além de ter que conseguir embarcar eu tinha que retirar a bagagem na esteira, fazer um novo check-in na Delta e então procurar o portão de embarque. Mas como o vôo já tinha saído, eu só conseguiria chegar no balcão da Delta para quem eu tinha apenas chegado atrasado e perdido o vôo. Decidi então ver qual o encaminhamento da Continental já que eu tinha voado com esta companhia para lá, embora ela não fosse diretamente responsável pelo meu atraso. Fui para a fila. Depois de mais de uma hora a atendente ainda estava conversando com a primeira pessoa da fila. Eu considerei ir buscar minha bagagem e ver diretamente com a Delta o que fazer, mas para isso eu teria que sair da área de embarque e eu não sabia se eu ia conseguir voltar. Tentei falar com outra pessoa, num outro balcão e não consegui nada. Depois de mais de uma hora e meia veio uma segunda pessoa que começou a atender as pessoas que a esta altura – inclusive eu – já estava à beira de um ataque. Duas horas depois ela me atendeu e disse que a Continental não poderia se responsabilizar pela perda do vôo da Delta e que eu tinha que ver diretamente com esta companhia o que fazer, mas que deveria me encaminhar para outro vôo. O que eu estava tentando explicar duas horas antes.
Então tive que ir ao portão internacional da Delta. Nova fila. Mas consegui ser atendido rapidamente. Mesma história. Para nós você apenas chegou atrasado e a culpa é sua, mas como sabemos que você não chegou a tempo por causa dos problemas com o tempo, vou colocar você na lista de espera para o vôo de amanhã que também já está quase lotado. E minha bagagem deveria estar na esteira, na saída do aeroporto. Ganhei apenas uma indicação de hotel onde me hospedar até o outro dia. Percorri todo o aeroporto (que tem mais de um quilômetro de extensão) jurando que eu não encontraria as minhas malas. Mas elas estavam lá, sozinhas, girando na esteira. Liguei para meu/as amigos/as em Newark para dizer que não tinha conseguido embarcar e que provavelmente embarcaria no dia seguinte. Saí do terminar e fui tentar achar a van que leva para o hotel. Tinha centenas de pessoas na mesma situação, com malas, crianças, tentando ir para os vários hotéis próximos ao aeroporto. Não achei a van do hotel que tinham indicado. Depois de mais meia hora e de ter pergunta para vários motoristas, um deles disse que o hotel dele fazia o mesmo preço. Fui. Na van estavam mais duas pessoas, brasileiras (!), que também tinham perdido o vôo (mas para São Paulo). No hotel, tomei banho e dormi.
Como eu tinha que sair do hotel até o meio dia, me programei para ir ao aeroporto tentar resolver a situação. O rapaz e a moça do Brasil tinham ido de manhã cedo e conseguido “confirmar” a passagem para São Paulo à noite e estavam saindo para passear por Atlanta. Aproveitei que tinha internet e conseguir ver que havia vários lugares não marcados no vôo, mas não consegui marcar um para mim. No aeroporto, fui para uma fila de check-in (já que é quase tudo feito diretamente no computador). Esperei quase uma hora para ser atendido e a moça disse que eu ficaria mesmo na lista de espera e que não tinha como saber quais eram as probabilidades de eu embarcar, mas despachou minhas malas. Eu teria que ir meia hora antes da saída do vôo no portão de embarque e ver se tinha lugar. Fui ainda num outro balcão onde uma funcionária me disse que para marcar assento eu teria que pagar 50 dólares se tivesse lugar e enfrentar a fila. Mais quase duas horas de fila e a outra funcionária disse que como eu tinha perdido o vôo por atraso (ou seja, não por culpa da companhia) eu só podia ficar na lista de espera sem garantias de embarque porque todos os assentos já tinham sido vendidos. A companhia estava sendo legal comigo, porque na realidade eu teria que pagar uma nova passagem, foi o que ela disse. Tentei ainda falar com a agência da universidade que comprou a passagem, mas ela disse que não podia fazer nada com relação a esse vôo. Se não desse certo eu deveria ligar para ela cedo no dia seguinte e ela ia ver se conseguia alguma coisa. Fiquei o resto do dia no aeroporto, ainda encontrei o/a brasileiro/a e fui 6:30 para o portão. Lá encontrei uns/as outros/as 30 brasileiros/as que estavam na mesma situação, com uma diferença: embora eles/as não tivessem assentos marcados, a passagem dizia “confirmado” enquanto eu estava na “lista de espera”. A moça que estava no balcão ainda disse que “confirmado” não significava que embarcariam, pois o vôo estava “overbooked” (mais gente para viajar do que lugares disponíveis).
Um pouco depois das 8:00 começaram a atender. Algumas pessoas “confirmadas” ganharam assento, outras não, ainda tinham que esperar. E eu, somente depois que todas as passagens “confirmadas” tivessem conseguido lugar, poderia conseguir. O vôo que saía para São Paulo quase no mesmo horário, e que a esta altura já era uma opção, estava ainda mais cheio do que esse. Então veio um outro senhor e começou a pedir voluntários/as, primeiro para ir outro dia, depois para ir pelo Chile – São Paulo – Rio. Alguns/as voluntários/as apareceram, atrás do agrado de 600 dólares que a companhia estava oferecendo, e parecia que iam conseguir embarcar todos os confirmados. Perguntei pro senhor se isso valia também para as pessoas na “lista de espera” e ele disse que para essas seria difícil. Perguntei se havia alguma chance de eu embarcar para o Rio e ele disse que não. Então perguntei se eu poderia ir pelo Chile e disse que não precisava ir até o Rio, mas poderia pegar vôo para Porto Alegre desde São Paulo. Ele pesquisou, fez uns sons estranhos, e disse que tinha um vôo de São Paulo para Porto Alegre, mas que não podia confirmar e pediu para eu passar no balcão onde eles emitiam a nova passagem. Lá encontrei o/a brasileiro/a de novo – também estavam indo pelo Chile porque a situação do vôo para São Paulo era ainda pior. Embarcamos às 10h da noite.
Chegamos no Chile no horário. Passamos pela alfândega, mas não tinha nenhum balcão da TAM (que era o vôo para São Paulo) para pedir informações. O brasileiro que eu tinha conhecido decidiu passar pela imigração e sair no aeroporto para ver se sabia alguma coisa das malas e marcava o assento (que ninguém tinha) para São Paulo. Eu, a outra brasileira, e mais uns/as outros/as 20 brasileiros/as decidimos ficar e esperar. Encontrei um Starbucks (café), Bruna (a brasileira) encontrou um espaço para fumantes e a internet (miraculosamente) funcionou no meu computador. Por um momento eu pensei que Deus existe. Daniel (o brasileiro) voltou par ao terminal com o assento marcado e a informação de que a bagagem ainda estava em Atlanta e somente seria entregue um dia depois da chegada em casa. Ele ainda incentivou todo mundo a comprar vinhos chileno, pois de alguma forma ele conseguir curtir toda essa história. Às 11h começou a ser formar uma fila no portão de embarque para o vôo da TAM. Logo depois chegou um funcionário com os cartões de embarque para todos/as brasileiros/as que tinham vindo de Atlanta e ele me disse que em São Paulo eu tinha que ir até o balcão da TAM para retirar o cartão de embarque para o vôo para Porto Alegre, no qual a minha reserva estava confirmada. A bagagem, ele disse, estaria lá e eu teria que despachá-la novamente depois de passar pela alfândega. O vôo foi inacreditável. Poltronas espaçosas e confortáveis, tela individual com jogos, música, filmes e outras coisinhas, kit de viagem da TAM. Só a comida que, ainda que fosse diferente, tinha o mesmo gosto (de comida de avião) que eu vinha comendo há dois dias. Quando olhei pela janela eu vi a Cordilheira dos Andes, coberta de neve, e, por outro momento, pensei que talvez tudo isso tivesse acontecido para eu ver aquilo – impressionante.
Em São Paulo, passamos pela imigração e fomos pegar as malas – que não chegaram. Falei com um funcionário da TAM e disse que tinha outro vôo. Ele fez o relatório da bagagem extraviada – que, de fato, ainda estava em Atlanta – e disse para eu fazer o check-in no balcão da TAM. A moça não conseguia emitir o meu cartão de embarque e, depois de falar com outra pessoa, disse que a minha reserva estava ok mais que eu precisava passar na loja para emitir uma nova passagem. A esta altura já eram 6:30, o vôo saía 7:20 e o check-in fechava às 6:50. Corri para a loja da TAM e tive que entrar na fila. Fui atendido 6:43 e a moça teclava e olhava para o computador sem dizer nada por minutos que pareciam intermináveis. Finalmente ela disse que eu tinha que pagar a diferença de 25 dólares, eu disse que tudo bem desde que eu conseguisse embarcar. Paguei, peguei a passagem, fui no check-in, ela emitiu o cartão de embarque e eu corri para o portão. Eu era um dos últimos passageiros e quando eu estava na van que levava para o avião que estava no pátio, lembrei que o documento das minhas malas extraviadas tinha ficado no balcão do check-in. Voltei para o portão, expliquei para o funcionário e ele disse que se eu voltasse para buscar perderia o vôo. Sugeri (!) que ele ligasse e perguntasse que estava lá. Ele confirmou e disse para eu ir para o avião que levariam o documento até lá. Quando cheguei na minha poltrona, tinha uma mulher sentada. Ela perguntou se eu me importava de sentar na outra poltrona (na janela) porque ela estava com os filhos e queria sentar junto. Não tinha mais forças para nada e sentei na janela, onde recebi o documento das malas.
Chequei em Porto Alegre às 9h. Conectei o carregador do meu celular e liguei para o meu amigo, pois a chave do meu apartamento estava em uma das malas que eu despachei enquanto esperava um funcionário da TAM que eu precisava avisar das minhas malas. Peguei o trem, um outro amigo me esperou na estação, me levou até em casa e depois na casa dele para comer uma sopa. Voltei pro meu apartamento, tomei banho e, quando estava terminando, o chuveiro queimou. À meia noite fui dormir. E já era o início da quinta-feira.